Autor: admin

Exordium (2)

Iniciámos esta nossa Grande Loja Unida de Portugal faz pouco mais de um ano, a 4 de Julho de 2016. Eramos um grupo pequeno de Maçons com sonhos do tamanho do mundo…

Ao longo deste nosso primeiro ano de atividade conseguimos realizar grande parte dos projetos a que nos propusemos e imbuídos do espírito de União, Solidariedade e Fraternidade, de que já tínhamos saudades. Praticámos Maçonaria!

Crescemos enquanto Homens, enquanto Maçons, conseguimos dar Alma a este nosso projeto e queremos continuar no mesmo rumo e com a mesma intensidade, certos que é o caminho da Luz.

Internamente, realizámos tantas tarefas que já são difíceis de elencar, mas de que destaco algumas: – o lançamento do nosso ritual do primeiro grau do rito português em formato de livro, todo o trabalho de investigação e retificação que está a ser efetuado em todos os rituais de todos os ritos para poderem ser também objeto de edição em livro, o lançamento do guia do iniciado em formato digital, iniciámos a produção e a entrega de paramentos a todos os obreiros, o trabalho fantástico da construção do nosso Templo e áreas adjacentes, o lançamento da 1ª mostra de arte maçónica e que está patente no nosso Templo, a consagração da primeira Loja fora de Lisboa, a edição dos fins-de-semana de formação maçónica (2 edições), a iniciativa de portas abertas que levou a que dezenas de profanos visitassem o nosso espaço, as três sessões de Grande Loja realizadas, o jantar de natal da GLUP, os ágapes rituais das Lojas e o ágape ritual de Grande Loja por ocasião do aniversário, a comemoração do dia Internacional do Maçon, o evento de arraial de Santo António, as visitas culturais, a missa realizada a 10 de Junho, em honra dos maçons que lutaram por Portugal, os inúmeros ágapes e jantares debate com oradores profanos, o sistema de faturação individual e sistema de pagamento on-line, as horas de formação a aprendizes, companheiros e mestres, todo o trabalho normal e regular das nossas Lojas, a publicação do nosso Boletim….mas tudo isto só foi possível com a união de todos e com a vossa entrega.

Tantas foram as iniciativas, que realizámos externamente e que também tiveram o seu impacto. Todos os meses realizamos visitas culturais e de valorização do nosso património edificado, realizámos iniciativas de solidariedade com os Bombeiros do Beato, das quais destaco as mais de duas toneladas de alimentos e roupas que conseguimos fazer chegar aos mais necessitados, bem como o barco que doámos à corporação dos bombeiros, conseguimos em parceria com a Junta de Freguesia do Beato recolher mais de 1000 livros e doámos um espetáculo musical, onde estiveram mais de 1000 pessoas que aplaudiram o que somos e o que fazemos.

Mudámos mentalidades e mudou, essencialmente, a forma como todos percecionamos a Maçonaria feita na Grande Loja Unida de Portugal.

Cientes que queremos continuar a trabalhar em prol da Maçonaria e da sociedade, falar da Grande Loja Unida de Portugal é falar da nossa casa e da nossa família!

Agora que se aproxima o período de férias maçónicas, quero agradecer todo o vosso empenho e dedicação e desejar-vos um bom período de férias em família, com a certeza que em setembro estaremos todos de volta retemperados de energias para prosseguirmos os nossos objetivos e continuarmos a praticar Maçonaria na Grande Loja Unida de Portugal.

Boas Férias!

EXTREMÓFILOS

Estes microrganismos vivem e multiplicam-se em ambientes muito radioactivos, ácidos, alcalinos (de elevado PH), quentes, frios ou salinos, sujeitos a altas pressões, sem oxigénio ou contaminados com metais tóxicos.

Deste grupo faz parte uma bactéria “portuguesa” com o nome pouco expressivo de NL19, recém-descoberta na antiga mina de urânio da Quinta do Bispo, em Viseu. Vive como peixe na água, no seio de lamas com elevadas concentrações de metais radioactivos e uma quase ausência de nutrientes.

Também muitos destes microrganismos vivem dentro do corpo humano e, por incrível que pareça, cada um de nós transporta dez vezes mais extremófilos do que células e cem vezes mais genes estranhos do que os seus próprios genes.

Não é de admirar pois que, feitas as contas, se conclua, como o fez o investigador Adriano Henriques, coordenador da Divisão de Biologia do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, que ‘os seres vivos dominantes na Terra, em número e diversidade, foram, são e serão as bactérias’.

É aqui que quero focar-me: será que a consciência, atributo exclusivo aos humanos, que se saiba, é condição para nos considerarmos superiores aos outros organismos da Terra? Porque se analisarmos as coisas com isenção, será realista a importância que nos atribuímos enquanto espécie quando, acidental ou fortuitamente, formos alvo de algum acidente de percurso que nos permita sobreviver como o fazem as bactérias?

Lembremo-nos do destino que tiveram os grandes répteis, espécie aparentemente dominante no nosso planeta até há cerca de 50 ou 60 milhões de anos quando, um asteroide caído na península do Iucatão, provocou a sua extinção.

Quando estive nesta região do globo senti, calculo, a mesma reverência do peregrino que vai a Fátima embora, no meu caso, sem o paradigma religioso, pois o desaparecimento dos grandes sáurios permitiu aos mamíferos evoluírem ao ponto de hoje poder partilhar esta prancha convosco.

Ciclicamente, há uma espécie que aparenta ser mais bem-sucedida para vingar que as outras, mas se as coisas ‘dão para o torto’ e há uma extinção em massa, a vida microbiana, que já existia mesmo antes de nós fazermos parte da sua ‘cadeia alimentar’, irá encontrar seguramente um novo hospedeiro.

Com as informações que dispomos, ficámos também a saber que os esporos das bactérias resistem a tudo. Uma colónia gerada por uma única bactéria, um organismo unicelular, pode ter 10 mil milhões de células.

Os esporos são uma forma de repouso em que o metabolismo bacteriano está inactivo, uma estratégia que lhes permite sobreviver a períodos durante os quais as condições ambientais não permitem crescimento. As sementes das plantas são um exemplo bem conhecido.

E como todos sabemos, mesmo não sendo jardineiros, a razão para isso é não haver água, pois neste caso a água que existe dentro das células é substituída por minerais. Daí que, depois de as colocarmos na terra, a primeira operação a fazer é regá-las para que acordem…

Conclui-se então que o esporo é como uma pedra, um mineral que não tem actividade metabólica. E logo que está em contacto com ela, dá-se o milagre: a vida surge!

Perante isto, resta-nos aceitar a nossa presença na Terra como sendo uma das formas de vida que aqui se manifestaram e, provavelmente, não a mais importante, como muitos arrogam.

Neste ponto convém lembrar que, na hora da nossa morte, não sendo nós cremados, as bactérias que nos vão consumir até ao osso não entram de forma sub-reptícia no nosso caixão; nem já lá estavam tranquilamente à nossa espera, a pedido do cangalheiro…elas consomem-nos porque deixámos de lhes dar comida por via da nossa existência funcional enquanto seres vivos.

E quando a nossa máquina pára de os alimentar, comem a máquina!

Como disse Lavoisier, “na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

E ao acreditarmos na sua frase imaginamos hoje, mais de trezentos anos depois de ter sido morto na guilhotina, aos 50 anos, que foi transformado numa ração ‘gourmet’ de alto teor enciclopédico, alimentando os microrganismos que nos habitam em duas tranches, cabeça e tronco, uma espécie de entrada e prato principal, o que fez com que, seguramente, a geração de extremófilos que se seguiu à sua morte, fosse de natureza mais cientifica por via da assimilação dos seus neurónios…

Especulações à parte, pergunto: para onde vão de seguida os nossos comensais depois de nos terem comido a carne e lambido o esqueleto? Será que depois de morrermos, lhes proporcionamos a versão bacteriana da “Ultima Ceia”?

A pergunta chave deste raciocínio é parecida e talvez tão incómoda como outra que vem sido feita há muitos muitos anos: “O que é que havia no Universo antes do Big Bang?”

É que não nos comendo eles os ossos, e partindo do principio que nada mais há no caixão para lhes servir de alimento, para onde é que eles vão de seguida? Canibalizam-se até ao último? E este último? Morre de fome?

Talvez adormeçam numa letargia mineral, ‘esporificados’, à espera da oportunidade de saltarem, microbioticamente falando, para o interior de outro ser vivo que lhes garanta o ressurgimento activo – não confundir com renascimento, pois não estavam mortos – pela janela da humidade do ar que respiramos, ou mesmo por contaminação benigna, simbiótica, através da ingestão de uma alface Bio nascida do estrume rico em azoto e fósforo…

Seja como for, convém interiorizar o facto de sermos nós os hospedeiros dos verdadeiros ‘senhores da Terra’, e não o contrario; e que as inúmeras mortes por nós infligidas aos nossos irmãos de espécie ao longo de toda a história da humanidade, mais não são que suprimentos contínuos, e talvez a pedido, destes companheiros de viagem que não querem esperar muito tempo para se banquetearem.

Soubemos recentemente da descoberta de fósseis na Gronelândia datados de 3,7 mil milhões de anos, 220 milhões de anos mais velhos que os mais antigos vestígios de vida na Terra conhecidos até hoje.

O que é fascinante é que as estruturas e a química destes fósseis, os estromatólitos, deixam pensar numa atividade microbiana 800 milhões depois do nosso planeta nascer, anunciando-nos que já havia nessa “origem biológica”, um sinal “de uma emergência rápida da vida na Terra, trazendo-nos novas perspectivas sobre os ciclos químicos e as interações rocha-água-micróbios num planeta jovem”, segundo cientistas da Universidade Nacional Australiana.

Na evolução biológica, indivíduos competem pelos recursos do meio ambiente, e também competem por oportunidades de reprodução.

Ao reproduzirem-se com sucesso, passam adiante os genes que lhes deram vantagens no ambiente.

Só que a reprodução não é um processo de cópia exata; acontecem erros, as chamadas mutações. A maioria das mutações é neutra, mas algumas podem conferir ligeira vantagem a quem as desenvolve.

À medida que acumula mutações, a espécie vai-se modificando até chegar ao ponto de não poder mais reproduzir com os indivíduos da espécie original: é assim que surge uma nova espécie.

A reprodução, na ausência de metabolismo e código genético, dá-se de forma simples, através do rompimento do replicador. As duas partes que surgem de um rompimento continuam o trabalho de crescer através da absorção de blocos básicos para criar cópias de si mesmos, o que de certa forma estabelece uma competição.

Os blocos nem sempre são montados de forma idêntica, e as mudanças surgem aqui e ali, o que será equivalente às mutações.

E será que foi só o Tempo entre esse momento atrás descrito e os dias de hoje que permitiu que chegássemos à consciência?

Então e os outros Primatas que partilham a quase totalidade do nosso ADN? Aquilo que somos, a nossa árvore genealógica, só ‘recentemente’ é que criou o galho onde estamos. O que é que nos afastou dos Chimpanzés, Gorilas e Orangotangos, uma vez que evoluímos em conjunto?

Há um momento, este, em que não podemos ignorar a presença do GADU.

Meus QQII: não desperdicemos a dádiva que nos foi dada de pertencermos a algo que não estamos programados para compreender, mas sim para aceitar.

É como o Amor: se alguém o puder explicar, que o diga.

Disse, VM!

LVB,  MM da RL Camões

*Extremófilo: é o organismo que consegue sobreviver, ou até necessita mesmo de habitar em condições geoquímicas extremas, prejudiciais à maioria das outras formas de vida na Terra. Os micróbios são os extremófilos mais conhecidos.

ÁGAPE: Símbolo e ritual do ser solidário

Nota Introdutória

Todas as Pessoas certamente já experienciaram que as interações que mantemos ao longo de toda a nossa existência, quer com os outros, quer com os objetos, contém uma complexa dimensão simbólica, pese embora, disso, não estejamos por vezes, muito conscientes. Muitos cientistas sociais, assinalando tal facto, caracterizavam o ser humano, embora algo redutoramente, como Homos Simbólico.

Um dos aspectos, talvez, interessantes que se colocam ao nosso entendimento, nesta matéria, configura o reiterado hábito, da participação colectiva em antiquíssimos rituais sociais, relevando a partilha (de alimentos) numa refeição comum. Num determinado momento (precoce) do processo histórico cultural, num determinado tempo/lugar do mundo antigo, até aos nossos dias, a dimensão afectiva e espiritual associada a tal acto, tão gratificante e tão carregado de densidade simbólica, para além da importância e preservação da subsistência, contribuía (e contribui) para a exponenciação da coesão grupal, de reforço ao processo identitário, de estabelecer ou reforçar, relações de solidariedade, aliança e amizade.

Contextos espaço-temporais do processo simbólico

Os diversos modelos e narrativas que intentam compreender a evolução da humanidade, invariavelmente reportam (ao menos de forma implícita), dois eixos orientadores, fundamentais da experiência humana. Referimo-nos ao Tempo e ao Espaço e estão na base de inumeráveis representações simbólicas, reportando um esforço constante de apreender novos sentidos e significados da realidade existencial. Com efeito a referência a essa dualidade complementar, sobre cuja polissemia de sentidos e significados, quase(?) toda a aprendizagem se processou, ao longo da evolução sócio-biológica e cultural da humanidade, constitui uma recorrência notável. À medida que se foi engendrando respostas adaptativas eficazes face aos desafios do ambiente, à medida que nos fomos distanciando da animalidade originária, à medida que fomos necessitando de fornecer(novos) sentidos e significados ao que ainda era desconhecido – logo ainda inefável-, o processo primordial de elaboração do simbólico, configurou desde sempre, um dispositivo cultural com um valor instrumental essencial de uma enorme versatilidade. Era preciso, era urgente, dar sentido e significado às coisas que n os rodeavam e para as quais, ainda não se dispunha da palavra que as nomeasse. Nada mais plástico, nada mais flexível que a linguagem metafórica e o pensamento simbólico, para exprimir condensadamente, aquilo que não pudemos (ainda) descriminar.

Os cientistas sociais (algo redutoramente) nos seus debates, tenderam a privilegiar a função (do símbolo) centrados quase exclusivamente em aspectos como a coesão social e os complexos rituais; a preservação das fronteiras sociais, ou ainda, as relações entre comunicação simbólica e  metafórica e comunicação racional e analítica; conhecimento e linguagem. Sem entrar em exercícios de desbravamento conceptual, tem sido possível admitir, que, os símbolos, não constituem uma realidade autónoma, estando profundamente imbricados no processo cultural. Mas não apenas isso: é igualmente admitido que, para surpreender tal versatilidade de sentidos e significados, torna-se necessário considerar a inclusão de cada simbolização (em cada momento do processo evolutivo – cultural), num sistema complexo, em que os símbolos se reenviam interactivamente um aos outros, assumindo eventualmente novas dimensões e perspectivas. Configura-se assim uma espécie de constelação simbólica, constituindo um sistema aberto, em que cada símbolo se encontra em interacção dinâmica com outros, podendo transfigurar-se formal e semanticamente ao longo da dupla dimensão espaço/tempo e exprimir-se numa narratividade infindável. A dualidade tempo-espaço está de tal modo imbricada na totalidade do ser e do existir, que até a própria etimologia do próprio verbo “ser ou estar”, revela em si mesmo essa dupla dimensão (ser/temporal; estar/espacial).

É neste sentido que Norbert Elias na introdução da sua obra sobre Teoria  Simbólica (Ed. Celta, Oeiras,1994), referindo-se à noção de espaço, afirma que “…pode ser representada por conceitos como largura, profundidade, comprimento…”, podendo constantemente actualizar-se e integrar-se em infinitos processos de simbolização e metaforização, como facilmente se constatará, se introduzirmos o conceito de dimensão (integrando aquelas noções), também ele ponto de partida para novas especulações simbólicas. O modo como se organiza o espaço, as estratégias do ser humano, objectivando no espaço, as representações que engendra sobre a sua relação com as coisas imateriais e com o mundo sensível, deixa perceber que qualquer facto ou acontecimento, comporta dois modos de existência mutuamente interactivos: a realidade sensível e a sua representação mental, integrando as diversas formas de conhecimento, nomeadamente o conhecimento científico. Todavia, a explicação científica e racional de tal existência foi precedida do conhecimento simbólico e do pensamento metafórico.

A percepção de que a orientação global de qualquer acontecimento no espaço, implicaria igualmente a sua perspectiva no tempo, deve ter acontecido muito cedo na história da humanidade e certamente precedeu a sua explicação científica, o que remete para a representação simbólica primordial. Elias, na referida obra refere que “Einstein descobriu que o nosso universo é tetra-dimensional, tal não implica que de facto, a integração dos meios de localização, ao nível do tempo-espaço, fosse desconhecida antes de Einstein a tornar explicita. Qualquer mudança no comprimento é também uma mudança no tempo. È difícil admitir a ideia de que antes de Einstein, ninguém teve jamais consciência deste facto…”

Toda a realidade social e histórica contém-se indissociavelmente num tecido simbólico: os actos e acontecimentos, individuais e colectivos (o trabalho, o consumo, o amor, a guerra, a festa, a produção material e imaterial, as instituições, o poder, a religião e muito mais, com especial relevância para a linguagem), existem socialmente, integrando um tecido simbólico.

Isso é bem visível nas celebrações e práticas rituais, nomeadamente no Ágape ou refeição ritual, colectivamente partilhada pelos membros de um grupo, relevando os significantes observáveis nas diversificadas práticas gestuais e verbais que integra: disposição espacial hierarquizada, brindes e invocações, comunicação predominantemente vertical, assimetria no poder discursivo, ordens e incitações para fazer ou a não fazer e muito mais. Para além disso, toda a ordem simbólica, não se reduzindo a si própria, não pode iludir a dimensão funcional (racional) dessas complexas práticas de reforço do grupo, pela diluição do “eu” no “nós”. Em verdade valerá a pena debater ou consciencializar, o seu papel de reforço e actualização da comunhão/coesão do grupo, restauração identitária, da solidariedade e do sentimento de pertença, tanto mais relevante e necessária, quanto a persistência de um sentimento impressivo de desagregação dos relacionamentos sociais e de isolamento, nos tempos que correm. Daqui facilmente se infere a importância da participação de todos os membros de qualquer fraternidade no tipo de experiência que o ágape proporciona, acrescendo o facto de que, incorporar o alimento comum, corresponde a introjectar (simbolicamente) a norma cultural sancionada pela colectividade. Numerosos eruditos assinalam este tipo de práticas rituais em numerosos contextos culturais com especial relevância para as religiões, entre as quais a cristã, ou e ainda, nos rituais de morte. Não nos deteremos nas muitas e diversificadas práticas atinentes a este último aspecto, lembrando apenas o banquete (por vezes sumptuoso) ofertado pela família de um defunto, verificado ainda hoje nas culturas anglo-saxónicas, ao conjunto de vizinhos e amigos e o significado que isso representa, em termos de reforço do estatuto social da família do falecido.

Àgape e Amor

Na experiência cristã, segundo o Novo Testamento e o Evangelista João, a essência do àgape releva de uma energia amorosa implicada na caridade e na solidariedade, cuja efectivação permitiria a construção do Reino de Deus. Em suma o “puro amor de deus”. Em S. Paulo por sua vez, realizar a ágape, não apenas produz uma alteração do foro psicológico ou moral, mas igualmente uma transformação ontológica. Neste contexto a ideia de amor cristão, não refere propriamente um sentimento, ou um princípio gnoseológico, mas mais uma acção criadora do bem, conotado com um valor moral prático, interventivo, de partilha e solidariedade, pressentido em muitos movimentos religiosos, desde os primórdios, até aos nossos dias. Enquanto termo bíblico, o ágape, opõe-se á ideia de “eros”, na medida em que aquele exclui o desejo de posse reflectindo o egocentrismo humano.

 A refeição ritual

O Ágape, no seu duplo modo de existência (enquanto representação simbólica e realidade) deve ter sido objecto de (des)integrações e alterações de significado, ao longo dos séculos, variando ao sabor dos contextos culturais, pelo que seria humanamente impossível dar conta da sua polissemia de significações e sentidos.  Mas independentemente dessas variações e assumindo a diversidade de práticas e simbolizações (a celebração do funeral, a festa em honra dos mortos, ou das divindades, o banquete cerimonial em ritos de passagem, de iniciação ou propiciatório e finalmente na ceia cristã), é inegável o sentido essencial comum de tais práticas, que em última análise, remete para a afirmação vitoriosa de uma unidade do cosmos, sempre confrontado com as forças desagregadoras do caos ameaçador. E isto vale tanto para o banquete totémico das culturas antigas, como para as ceias (última refeição do dia) dos tempos apostólicos, com os participantes reunidos para a leitura dos evangelhos ou as ceias religiosas e das irmandades dos tempos modernos. Por exemplo, o ritual da Eucaristia ligada à tradição da ultima ceia, ocorre com similitude face ao ritual maçónico do ágape, uma vez que se trata de uma comunhão em nome de valores e princípios admitidos por todos os membros participantes. A comida encontra uma razão substantiva, não na quantidade, mas na sua essencialidade e projecção simbólica, porque o que é ingerido igualmente por todos, obstaculiza a fragmentação, recompondo e actualizando o “todo” e por maioria da razão, a simpatia fraternal.    No tempo das corporações medievais (incluindo os maçons operativos), os operários, muito provavelmente realizavam as suas próprias refeições em conjunto, no local onde trabalhavam, costume que de resto, deveria ser comum a todos os trabalhadores sobretudo se recuarmos no tempo. Sem dúvida que tal ocorrência contribuía para a emergência de um sentimento agregativo ou de inclusão do individuo no grupo. De resto, o sítio onde operavam (o local de trabalho ou a loja) reporta a noção de lugar na concepção da antropologia, ou seja, lugar vivencial de experiências do quotidiano, lugar identitário e relacional, opondo-se à ideia de não-lugar reportado à noção oposta observável nos sítios anódinos e anónimos, fragmentadores da experiência humana, dos não lugares em que vivemos. Na mesma ordem de factos registe-se a etimologia francesa da palavra companheiro (coupain), ou do latim”compane”, denotando o costume antigo, “daquele com quem partilho o pão”. Necessariamente que a maçonaria especulativa adoptando novas práticas e um renovado universo semântico mais adaptado a novas realidades, veio acrescentando novas significações, como por exemplo, os banquetes de lojas, inspirados na época pré-revolucionária francesa em que os utensílios e práticas se relacionam com significados militares. Nesta tradição tudo o que estiver na mesa adopta os termos utilizados na artilharia como vinho (“pólvora forte”), água (“pólvora fraca”), copos (“canhões”), entre diversos outros.

Nota Final

Especulando um pouco, é possível que as concepções clássicas que consideram o ágape como um resultado da ingestão de alimento, como elemento reparador/ restaurador do corpo, enquanto totalidade física e psíquica. Um sistema orgânico carenciado, entra em rápida entropia, pelo que a ameaça da fome deve ter sido pressentida como confronto com as forças desagregadoras e caóticas geradoras de desequilibras pondo em causa a integridade do “ser”. Mas não apenas. Lembremos que ao longo da história da cultura humana, a fome (e o intenso desequilíbrio psíquico-biológico que provoca) surge sempre como possibilidade tangível e assim sendo, na sua dramaticidade, a fome (ou a sua possibilidade), induz na experiência da refeição em grupo, a solidariedade, a coesão do colectivo, o reforço de uma memória e de uma identidade.

A passagem do micro ao macrocosmo surge então, como inevitabilidade sendo a natureza do “alimento” a variação notável. No fundo o que se trata é, e sempre, de uma tentativa de utilização de dispositivos técnicos e culturais, no sentido de reposição de equilíbrios sempre ameaçados.

E isto vale também para eventuais reflexões sobre a angústia da crise ampla e profunda dos nossos dias, em que o desequilibro entre o “dar” e o “receber” constitui recorrência. Com efeito paralelamente e subjacente á história económica “clássica “existe um outro registo, sobre uma economia da “dádiva” em que a obrigação moral de dar, retribuir e partilhar o excesso, que os antropólogos registam como o início primordial das trocas sócio-económicas, foi pensada e exposta por uma enorme plêiade de pensadores, filósofos e místicos como o nosso Santo António de Lisboa. Mas isso são desenvolvimentos que aqui não cabem.

DISSE

Fernando Casqueira VM

ANIVERSÁRIO da GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL

Meus Queridos Irmãos,

Em todos os Vossos Graus e Qualidades

Faz hoje precisamente um ano, neste mesmo local, recordámos a nossa vocação de sempre, que é a de sermos Excelentes Maçons e criarmos uma Maçonaria onde nos revíssemos e onde pudéssemos trabalhar em harmonia, em paz e sempre em favor do próximo e da Sociedade.

Foi assim que surgiu a Grande Loja Unida de Portugal.

Uma Grande Loja, que quis que uma nova geração de Maçons servisse Portugal.

Uma Grande Loja que recuperasse os landmarks, princípios e valores da maçonaria regular, mas ainda e consequentemente, que transmitisse uma imagem moderna, aberta e sem preconceitos de prática efetiva dos princípios basilares da justiça, liberdade de pensamento, solidariedade, fraternidade, verdade e honestidade.

Somos e temos que continuar a ser uma Instituição que ao final de 300 anos, funciona como uma plataforma entre Homens, culturas, capazes de criar diálogo, fazer a paz, aproximar visões diferentes.

Para isso, idealizamos e construímos uma Grande Loja, assente na formação constante a todos os níveis, Aprendizes, Companheiros e Mestres, apostando na Cultura e na Educação como pilares fundamentais para que não se repetissem erros do passado… mas também apostámos numa abertura ao mundo exterior, colaborando e integrando-nos na nossa comunidade local. Hoje, podemos dizer que pela primeira vez na vida da Maçonaria em Portugal, existe uma Instituição que não se envergonha de se assumir publicamente e que se integra de forma plena na comunidade local, ajudámos os bombeiros, realizamos atividades em parceria com as Juntas de Freguesia, aproximámo-nos da Igreja, somos reputados como Homens de Bem e a população reconhece-nos como tal…

É indesmentível que trabalhámos todos imenso neste nosso primeiro ano. Tivemos a sorte de muitos dos nossos Irmãos terem sentido este projeto como algo de seu e nos terem ajudado muitíssimo.

Conseguimos construir um Templo, o melhor do país, mas mais importante do que isso, conseguimos que esse Templo nos transmita uma energia positiva e que todos sentimos que contribuímos para a sua construção.

No final deste primeiro ano, trabalhámos no nosso crescimento interno, elevámos a nossa formação e conhecimentos, abrimos e demo-nos a conhecer ao exterior, encetámos aproximações com entidades com as quais nos cruzamos diariamente, ajudámos os que mais precisavam…

Tudo isto foi obra nossa, de todos os Maçons da Grande Loja Unida de Portugal.

No entanto, muito ainda temos que fazer.

O crescimento da nossa Grande Loja terá que manter um ritmo adequado, nomeadamente criando mais Lojas e consolidando as atuais. Será por esta razão que em setembro arrancaremos com três novas Lojas. Mas temos que realizar um esforço para que Todos entendam este crescimento como natural.

Outro dos nossos objetivos, prender-se-á com o nosso reconhecimento exterior e essa etapa iniciar-se-á agora.

Já demos provas do que somos e daquilo que podemos sonhar…

Como tantas vezes já repetimos, a Maçonaria teve, ao longo da história, um papel essencial no avanço da humanidade, na liberdade dos povos e na melhoria das condições de vida das pessoas.

É essencial preservar esse rumo pois a Maçonaria continua a fazer sentido enquanto caminho de aperfeiçoamento individual, partilha de vivências e contributo para a melhoria da vida em comunidade. Nesse sentido, importa que a Maçonaria seja uma escola de valores e princípios e uma academia de liderança. Um espaço de liberdade, de pensamento, de debate e inovação, de criação de projetos que contribuam para a melhoria da sociedade.

Nestes últimos meses de flagelos que assolaram o nosso país, conseguimos doar mais de 2 toneladas de alimentos e roupas…

Quando queremos, nos unimos no fundamental, e trabalhamos com competência, com método e com metas claras – superamos todas as dificuldades.

Faz um ano, não nos davam 3 meses de vida, não acreditavam que fossemos capazes de construir e edificar uma Grande Loja…. Errada pretensão, esqueceram-se que nós somos verdadeiros Maçons e que Unidos não nos conseguem deter.

Nós já tínhamos aprendido uma lição de que, no essencial, temos sucesso quando sempre estivermos unimos.

Neste tempo em que nos abrimos e nos demos a conhecer como no passado dia 24 de junho, temos de reafirmar os nossos princípios e saber o que é preciso fazer primeiro.

Os nossos princípios: acreditamos nas pessoas, no respeito da sua dignidade, das suas diferenças, dos seus direitos pessoais, políticos e sociais; acreditamos na democracia; acreditamos no Estado Social; acreditamos no dever de construir a solidariedade e a paz, e de lutar contra o terrorismo, na Europa onde nascemos, na Comunidade que fala português que ajudámos a criar, no Atlântico que atravessámos, nos novos mundos onde estivemos e estamos e queremos unir cada vez mais

À luz destes princípios, iremos continuar a construir o que foi iniciado há 300 anos.

Com esperança.

Com confiança.

Com fraternidade.

Acreditando sempre em nós próprios.

Acreditando sempre na Maçonaria e em Portugal!

Estamos Todos de Parabéns, Brindamos ao nosso 1º Aniversário!

Paulo Cardoso

Grão-Mestre

ATAQUE TERRORISTA OCORRIDO em LONDRES

Comunicação de pesar enviada pelo R:.G:.M:. em seu nome e da GLUP,  dirigida à Grande Loja Unida de Inglaterra, exprimindo a profunda tristeza e os sentimentos de condolências às vitimas do ataque terrorista, ocorrido em Londres.

GLUP - Condenação1 UGLE

Factos e Notícias

25 de Março

Dando seguimento aos projetos de intervenção social da G\L\U\P\, e em resultado da generosidade e sentido de solidariedade dos nossos II\ procedeu-se à angariação de fundos em ordem à aquisição e doação de meios de salvamento, nomeadamente, uma embarcação semirrígida, destinada a melhorar a eficácia assistencial, da prestimoso agrupamento de Bombeiros Voluntários do Beato.

Bombeiros Beato

25 de Abril

Como anteriormente vem sucedendo, realizou-se no dia 27 de abril, mais um ágape BRANCO aberto igualmente a profanos, num conhecido restaurante de Lisboa. O acontecimento, inspirado no sagrado valor da Liberdade alcançada com o 25 de Abril, foi largamente presenciado pelos nossos OO\ e Acompanhantes. Na oportunidade tivemos a honra de contar com a participação de eminentes oradores, que abordaram temáticas sobre Desigualdades.

25 Abril 6

6 de Maio

Ocorreu no dia 6 de maio, o levantamento de colunas de mais uma R:.L:. DA GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL a oriente de Coimbra e que adotou e TRABALHARÁ o R:.E:.A:.A:.. Realizou-se também uma ampla ação de Formação Maçónica, cujo programa foi largamente divulgado, dirigida a todos os OO:. da G:.L:.U:.P:.. Em complemento ocorreu no domingo, uma visita guiada ao Palace Hotel do Buçaco, Mosteiro Carmelita e respetiva Mata envolvente.

levantamento de colunas

9 de Julho

No dia 9 de julho, realizar-se-á o espetáculo, “Mil Vozes por um Livro”, no Convento do Beato, INICIATIVA EM PARCERIA ENTRE A GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL e a JUNTA DE FREGUESIA DO BEATO, levado a efeito pelo ARTISTA Fernando Pereira. O custo do ingresso será efetivado pela dádiva de um livro, efetivado por eventual espectador que deseje assistir.

Lord of the Voices III

7 e 8 de Setembro

Está programado a realização de um concerto, no Teatro Ibérico a 7 e 8 DE SETEMBRO, sob a direção musical do Maestro Hélder Bruno. ESTA SERÁ UMA INICIATIVA DA GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL QUE OFERECE À POPULAÇÃO DO BEATO UM CONCERTO DE MÚSICA INTIMISTA.

96914848_bde2de8abf_z

Ser livre e de bons costumes

Ser livre e de bons costumes, são dois dos valores mais importantes para os maçons, na medida em que se propõe um exercício de livre pensamento, de estudo sereno e sério sobre todos os fenómenos sociais e humanos.

A liberdade de aprender, a moral e os bons costumes são noções que importa salientar e que contribuem para um elevado sentido do bem coletivo e da vida em sociedade.

A liberdade também se conecta com o autoconhecimento, na medida em que é deste que nasce a virtude mais importante do ser humano, a sua capacidade de distinguir o bem do mal, de acordo com os valores que defenda, em prol da fraternidade entre os homens.

Ser livre é assim para todos nós, maçons, o resultado do desenvolvimento pessoal de cada um de nós, alicerçado na convivência fraterna de pessoas que comungam dos mesmos valores, em busca da sua liberdade individual e da convivência pacífica entre todos os seres humanos, independentemente dos seus credos, religiões ou filiações partidárias.

A noção dos bons costumes está presente em todos os aspectos da vida social e legal, seja no cumprimento das nossas responsabilidades enquanto cidadãos desta pátria que é a língua portuguesa, como imortalizou Fernando Pessoa, com a frase “A minha pátria é a língua portuguesa”, seja enquanto defensores de uma sociedade fraterna e que se delimita pelas suas normas e leis constitucionais às quais devemos estar sujeitos.

Os bons costumes são um traço genérico que caracterizam todos os maçons, sendo através deles que manifestam o seu comportamento e por isso mesmo deve ser um farol que nos guia o caminho nesta jornada que é a vida.

Numa reflexão pessoal e individual que faço, acredito no esforço e no mérito pessoal, acredito numa sociedade mais fraterna, responsável e sustentável e acima de tudo, acredito nos valores universais maçónicos que defendem a liberdade do ser humano e a fraternidade.

Como humano que sou, conheço as minhas fraquezas, mas acima de tudo sei do valor que posso acrescentar, servindo cada vez mais e melhor a sociedade a que pertenço, contribuindo para uma aprendizagem diária e um melhoramento contínuo enquanto homem e enquanto cidadão.

“Dentre todas as sociedades, nenhuma há, mais nobre e mais estável, que aquela em que os homens estejam unidos pelo amor.”

Cícero
AM, HF

Justiça e Verdade

Falar de justiça e de verdade obriga desde logo a procurar fixar o significado de cada um destes conceitos. Trata-se naturalmente de realidades com uma estreita relação que se espera que caminhem lado a lado, mas que se constata que nem sempre tal acontece. As teorizações à volta de ambos os conceitos são muito diversas e de complexidade variável.

Das várias definições de verdade encontradas, importa como primeira reflexão acerca deste conceito sublinhar que, a verdade será antes de mais, a conformidade com um facto ou realidade.

Contudo, tal afirmação não basta, pois devemos também ter presente que a verdade pode ou não estar em conformidade com um facto ou realidade, argumentando-se que ela é acima de tudo, uma interpretação mental da realidade transmitida pelos sentidos.

Podemos aperfeiçoar ainda mais esta ideia e acrescentar que, para que estejamos de facto perante a verdade, essa interpretação mental transmitida pelos sentidos, deverá ser confirmada por outras pessoas e por equações matemáticas e linguísticas que permitam construir um modelo de interpretação aplicável a casos semelhantes no futuro.

Para o que nos interessa analisar, podemos ainda considerar dois tipos principais de verdade – a verdade material e a verdade formal.

A primeira deverá ser entendida como a realidade em si, o que de facto acontece ou aconteceu. No caso de um processo judicial será o que existe ou existiu, independentemente de constar ou não nos autos.

A segunda é a que resulta da inferência a partir de postulados ou axiomas aceites como verdadeiros, na prática é a verdade que resulta do que está contido nos documentos que são apresentados. No caso de um processo judicial será o que consta nos autos, traduzindo-se no brocardo latino – “quod non est in actis non est in mundo” (o que não está nos autos não está no mundo).

Quanto à justiça, numa breve passagem pela Wikipédia, rapidamente percebemos que o conceito de justiça está presente em diversos campos do saber, nomeadamente, no estudo do direito, da filosofia, da ética, da moral e da religião. Ao longo da história, vários foram os estudiosos que se debruçaram sobre o seu significado.

Na antiga Grécia, merecem destaque a posição de três dos seus principais filósofos, Aristóteles, Platão e Sócrates.

Para Aristóteles, a justiça deveria ser entendida sobretudo como sendo “uma igualdade proporcional, defendendo o “tratamento igual entre os iguais e desigual entre os desiguais, na proporção da sua desigualdade”.

Para Platão, a justiça deveria ser vista como “sinónimo de harmonia social, sendo o justo aquele que se comporta de acordo com a lei .

Sócrates por sua vez, defende que “a justiça é virtude e sabedoria, é falar a verdade e devolver ao outro o que lhe pertence”, e que “a injustiça é maldade e ignorância”.

Um outro contributo relevante para esta temática foi-nos deixado por São Tomás de Aquino, que se afirmou sobretudo durante a Idade Média, defendendo a justiça como sendo “a vontade de dar a cada um o que é seu. Tomás de Aquino entende que “não há um código absoluto de uma justiça invariável, tendo em vista que a razão humana é variável” e que, “se somente a vontade de Deus é invariável, então a justiça somente pode estar em Deus.

Importa ainda fazer uma referência às duas grandes categorias que agrupam as principais teorias modernas sobre justiça. Numa primeira categoria, a ideia de justiça relaciona-se diretamente com a ideia de equidade. Numa segunda categoria, a ideia de justiça está mais ligada ao conceito de bem-estar. Cada uma delas comporta uma série de teorias diferentes que, tendo em conta as limitações impostas para a realização deste trabalho, entendo não ser imprescindível abordar.

Há, contudo, um autor, John Rawls, cuja teoria importa analisar, pela influência que teve em muitas das outras teorizações à volta do conceito de justiça como equidade e pela importância que, por esse motivo, a sua obra “A Theory of Justice”, publicada em 1971, acabou por ter.

Segundo J. Rawls (1971), os direitos individuais não poderão ser violados mesmo que em benefício da maioria, ou seja, a negação da liberdade a alguém não fica legitimada pelo facto de daí resultar um benefício para a generalidade das pessoas. O mesmo acontecerá na situação em que se equacione a imposição de sacrifícios a uma minoria para que daí resultem benefícios para a maioria. Assim, numa sociedade justa, as liberdades individuais e a igualdade entre todos os cidadãos terão necessariamente que estar garantidas.

A justiça é portanto a primeira virtude das instituições, tal como a verdade é a primeira virtude dos sistemas de pensamento, querendo com isto sublinhar que, uma qualquer instituição por muito bem estruturada e eficiente que seja, deverá ser reformada ou até mesmo extinta se não for justa e que uma teoria que não assente na verdade, terá necessariamente que ser revista ou abandonada.

Podemos então concluir que, a justiça deve basear-se na verdade e buscar a igualdade entre os cidadãos. Este poderá ser considerado o estado ideal de interação social, certamente um dos principais desígnios da humanidade.

Contudo, mesmo um espirito menos atento ao que se passa no mundo, rapidamente concluirá que em muitos lugares tal não passa de uma utopia. E não se torna necessário olhar para o terceiro mundo, pois no mundo dito civilizado não faltam exemplos que nos obrigam a concluir que, o que deveria ser entendido como virtude moral tendo como farol a equidade, se vai perdendo na bruma da chamada “pós-verdade”, rejeitando-se a verdade em benefício dos apelos emocionais e das crenças pessoais.

Será caso para dizer que, mesmo em muitos dos países ocidentais, onde a estátua de olhos vendados (que na antiga Roma traduzia a ideia de que todos os cidadãos são iguais perante a lei) continua a ser ostentada, devemos garantir que nunca lhe seja retirada a venda para que não se assuste com os “alternative facts” que por aí vão sendo fabricados e apresente a sua demissão…

AM, FP

O Número de Ouro

A história do número de ouro, desperta há muito tempo a curiosidade de muitos matemáticos. Também conhecido como a proporção áurea, a divina proporção, ou matematicamente pelo número 1,6180 (número Phi ϕ). A escolha para representar a proporção áurea com esta letra do alfabeto grego, terá talvez tido a ver com o arquiteto e matemático grego Phidias, que acredita-se ter provavelmente usado este conceito quando desenhou o Parthenon (templo dedicado à deusa Athena), no século 5 a.c.

Mas também podemos encontrar na antiguidade do Egipto, nas pirâmides de Gizé, que foram construídas tendo em conta a proporção áurea, no Papiro de Rhind (Egípcio 1650 a.C), um documento no qual constam problemas de um trabalho ainda mais antigo, que se refere a uma «razão sagrada» e que se crê ser o número de ouro, e também em muitas estátuas da antiguidade.

A proporção áurea não se limita a aparecer em obras de arte ou monumentos, não é difícil de encontrar exemplos na natureza, refletida nos nossos ossos, na ramificação de veias e nervos, na disposição das pétalas das flores, na formação de galáxias, na geometria dos cristais, nas teias das aranhas, e até na proporção entre abelhas (fêmeas x machos) de uma colmeia.

O número de ouro é um número irracional, misterioso e enigmático que nos surge numa infinidade de elementos da natureza na forma de uma razão, ele é o representante matemático da perfeição na natureza e foi o primeiro número irracional de que se teve consciência que o era.

Sabemos nos dias de hoje que um conjunto de fenômenos naturais podem ser expressos matematicamente, e que esta ideia se adapta inclusive a todas as ciências, como a física, a biologia, a economia e a medicina.

Durante anos o homem procurou a beleza perfeita, a proporção ideal, intrigando gerações de pensadores sobre este número. Não se sabe ao certo quem começou a estudar este número, mas o certo é de que muitos matemáticos tentaram descobrir qual seria esta relação, como Pitágoras, Euclides, Leonardo de Pisa (Fibonaci) mas também grandes pensadores fascinados com este intrigante número o utilizaram, como Platão, Leonardo da Vinci, Beethoven entre outros. No entanto e apesar de ser apenas um valor numérico, é reconhecido por muitos como o símbolo da harmonia.

Um exemplo, é o facto de que se desenharmos um retângulo cujos lados tenham uma razão entre si igual ao número de ouro este pode ser dividido num quadrado e noutro retângulo em que este tem também ele, a razão entre os dois lados igual ao número de ouro. Este processo pode ser repetido indefinidamente mantendo-se a razão constante, e a partir dessa proporção tudo era construído. A profundidade dividida pelo comprimento ou altura, tudo seguia uma proporção ideal de 1,618. Os Egípcios fizeram-no na construção das pirâmides, em que cada pedra era 1,618 maior do que a pedra em cima, e a de cima era por sua vez 1,618 maior que a outra em cima e assim por diante.

A secção de ouro terá sido usada também na construção da estrela pentagonal, sendo obtida através de diagonais do pentágono regular, que tem na relação entre o comprimento da sua diagonal e o comprimento do seu lado o número de ouro.

Quando Pitágoras descobriu que as proporções do pentagrama eram a proporção áurea, tornou este símbolo como a representação da Irmandade Pitagórica. Este era um dos motivos que levava Pitágoras a dizer que “tudo é número”, ou seja, que a natureza surge de padrões matemáticos.

No fim da idade média, por volta do século XIII, o matemático italiano Leonardo Fibonacci, estudava uma solução para o problema do crescimento da população de coelhos e acabou por descobrir a sequência matemática, conhecida como a série de Fibonacci, em que cada número é obtido pela soma dos dois números antecedentes e ao dividirmos cada termo da sucessão pelo número anterior os valores oscilam perto do número de ouro. Isso fica ainda mais relevante a cada nova divisão onde os valores dessas divisões vão convergindo cada vez mais do número 1,618, e onde a proporção de crescimento médio da série é 1,618.

Utilizando este sistema numérico construímos um retângulo com dois números interligados desta sequência, formando o chamado Retângulo de Ouro, e que é considerado o formato retangular mais belo e apropriado de todos. O Retângulo de Ouro quando é divido por quadrados proporcionais à Sequência de Fibonacci, ele alarga o seu conjunto consoante a sucessão de Fibonacci.

Ou seja, juntando dois quadrados unitários, teremos um retângulo duas vezes o primeiro, sendo que o comprimento do segundo é igual à soma dos lados dos quadrados anteriores. Voltamos a anexar outro quadrado em que o lado é o maior dos lados do retângulo anterior e teremos um terceiro retângulo. Continuamos a anexar quadrados com lados iguais ao maior dos comprimentos dos retângulos obtidos antes. A sequência dos lados dos próximos quadrados é a sequência de Fibonacci.

Construindo este quadrado e desenhando um arco, este padrão começa a construir formas, que são denominadas como a Espiral de Fibonacci. Esta simetria parece não ter muito significado, mas na verdade podemos observá-la em grande parte da natureza, assim como no nosso corpo, demonstradas em vários estudos de Leonardo da Vinci e no Homem Vitrúvio que mostrava as ideias de proporção e simetria aplicadas à conceção da beleza humana

O número de ouro é considerado como um símbolo da harmonia. Fibonacci deu uma grande contribuição à Geometria com a sua descoberta, a qual está relacionada com a solução do problema dos coelhos. Todos esses exemplos nos levam a perceber o porquê da grande importância que este número tem e o porquê do motivo que foi apelidado “de ouro”.

Pela sua história, é razoável supor que este número de ouro (1,618) tão fundamental na sequência de Fibonacci, possa ter sido descoberto e redescoberto diversas vezes, o que poderia explicar o facto de ter sido apelidado de tantos nomes: proporção áurea, número de ouro, número áureo, proporção dourada, razão áurea, razão de ouro, divina proporção, proporção em extrema razão, divisão de extrema razão, ou, simplesmente, Φ (phi).

AM, JPM

O Silêncio

Meus irmãos, nesta ocasião peço-vos respeitosamente que fiquem em silêncio e assim estarão na perfeita disposição de entender os legados de uma virtude sem par.

Para entender corretamente o que significa o silêncio para o Maçon, devemos manter a sua definição profana, indicando que é a privação voluntária da faculdade de falar. E na verdade, quase todos sabemos falar mas poucos sabem calar. Podemos dizer que o silêncio é uma virtude através da qual se corrigem muitos defeitos e se aprende a ser prudente e indulgente com as falhas que se observam.

A razão contemplativa do silêncio deve inspirar o aprendiz e o Maçom em geral a potenciar as suas possibilidades espirituais que se encontram sempre latentes, por outras palavras no silêncio encontra-se sempre a possibilidade de crescimento, quando nos afastamos das nossas influências exteriores, abrimos os canais da concentração, observamos, escutamos e contemplamos. Isto por si só é um processo que absorve uma grande força de vontade e demonstra que não é fácil estar em silêncio.

A primeira etapa de aprendizagem maçónica é designada pelo silêncio como meio hábil de criar uma atmosfera de trabalho adequada e uma ferramenta eficaz para o desenvolvimento intelectual e o cultivo da mente. É uma ferramenta hábil como indutora de calma interna necessária para neutralizar a ansiedade e a presa imposta pelas tentações do mundo profano.

Os irmãos aprendizes, dedicados ao desbaste da pedra bruta em silêncio, são símbolo vivo e operante de quem trabalha na construção da sua própria perfeição, de quem procura alcançar os mais altos princípios intelectuais, morais e sociais que modelam o nosso carácter plenamente, posto que esta atitude implica uma boa cota de força de vontade para conter a nossa necessidade natural de opinar e expressar os nossos pareceres. O silêncio nos dará a paciência necessária para a resolução de problemas e possibilitará escolher a palavra certa no momento em que estejamos habilitados para usar a palavra, com uma resposta adequada, inteligente, fraterna, livre de egoísmos e sem ofensas.

O silêncio dos aprendizes tem a dupla função de escutar a si próprio, pois os ruídos profanos dispersam-nos e apegam-nos ao superficial sem que possamos aprofundar os conhecimentos e como tal, se aprendermos a escutar, aprendemos a dar às nossas palavras o sentido profundo e correto que uma pessoa culta tem de ter. Tem ainda a função de escutar o outro, porque ao não participar nos debates centramo-nos e concentramo-nos na escuta reflexiva. Deste modo, as palavras dos nossos queridos irmãos não se perderão nas nossas cabeças, serão assimiladas, analisadas e incorporadas. Poderia dizer que enquanto os nossos irmãos falam, nós, os aprendizes participamos no diálogo por meio do nosso silêncio, mas não um silêncio por imposição, por ignorância ou por desinteresse, pelo contrário trata-se de um silêncio fértil que ajuda a desenvolver o nosso conhecimento, o nosso ser, a nossa consciência, e de certa maneira, também um silêncio ativo porque toma nota, pensa, dá fruto. Como vemos, o silêncio pode apresentar-se como passivo e ativo.

Para aprender a calar, temos de ter consciência das nossas fragilidades, o que por vezes é difícil encontrar o nosso silêncio interior. Dessa dificuldade deriva sem dúvida a maioria dos vícios do ser humano, pois a fala é por consequência a expressão audível dos nossos pensamentos, sentimentos e pareceres. O silêncio praticado pelos aprendizes é elevado à categoria de virtude, pois graças a ele é possível aprender a ser prudente, diligente, moderado e discreto.

Este tema faz-me retroceder no tempo, mais concretamente ao momento da minha iniciação. É bom recordar que o silêncio tem um papel principal no rito, desde que somos vendados e levados para a câmara de reflexões, é-nos revelado que só através da contemplação se pode aceder aos primeiros ensinamentos. A lei iniciática do silêncio começa quando ainda profanos, na câmara de reflexões, onde permanecemos sós, rodeados de símbolos, frases e palavras, e nos é estimulado a penetrar no nosso interior. De igual forma, quando prestamos juramento, adquirimos a obrigação de calar, especialmente quando nos é indicado que não revelaremos os segredos da ordem nem as palavras ensinadas ao mundo profano. Aí o silêncio simboliza a discrição e a disciplina do Maçom, assim como a sua lealdade para consigo próprio e seus irmãos. Para ser mais eloquente transcrevo um velho ditado que define bem esse ponto “os lábios da sabedoria estão mudos longe dos ouvidos da compreensão”, por isso, o bom Maçom prefere que lhe cortem a garganta que quebrar o silêncio.

O alcance da nossa palavra, produto do nosso pensamento, é a chave para a construção do nosso templo interior, através do polimento da pedra bruta. È melhor estar calado se não souber como e quando falar. É melhor estar calado, até que aprenda a importância de utilizar a palavra de uma forma consciente. É melhor estar calado enquanto não tenha a certeza de poder dominar a paixão como detonante do pensamento, e assim não avassalar, ferir, magoar o outro e seguramente magoar a mim mesmo. É melhor estar calado quando não esteja preparado para aceitar a minha missão. É melhor estar calado quando começo a caminhar por caminhos desconhecidos.

AM, JG