Categoria: Boletim N.º 1

O Imaginário Ecuménico de Portugal

O Universo Mitológico Português como “contributo” (para) e “reserva” do Universo Mítico da Europa.

1 – O presente texto apresenta-se como simples documento de trabalho, assumido como mero complemento a uma reflexão mais ampla, sobre o fundamento antropológico, histórico, mítico, ritualístico, do complexo imaginário português.

-Não terei a preocupação, por agora, de imprimir qualquer ordenamento lógico, sequencial, de factos importantes do nosso imaginário, pela simples razão de que as ideias, vão surgindo na mente em avassaladora catadupa, sem que seja possível aprisioná-las. São ideias “vadias” que, esvoaçam e diluem-se com uma rapidez tal, que torna impossível a sua apreensão, por uma exasperante escrita demasiadamente lenta.

2 – Alguns pressupostos de partida:

a) Dou acolhimento aos comentários que emergem na coletividade em que me integro, sobre a eventualidade de uma tónica narrativa, algo excessiva, ou de uma impressividade hegemónica, das metáforas de tradição judaico – cristã, adotadas nas nossas práticas formais. Não se denega a dimensão universalista e ecuménica, das atitudes e valores humanistas (inspirados naquela tradição), constantemente reiterados, nem tão pouco a sua possibilidade de operacionalização, numa excelente pedagogia, cada vez mais necessária, nos nossos dias de extrema materialização, ganância e hedonismo.

b) Mas também, apoio sem reservas as orientações e conclusões, veiculadas por uma plêiade de estudiosos nacionais e estrangeiros, que abordando uma “nova” perspetiva da história, não redutoramente positivista, determinista e racionalista, como fizeram (e fazem) os historiadores clássicos (reumaticamente sentados e dormitando nas suas poeirentas cadeiras das Academias), se colocam marginalmente fora das reduções diacrónicas, indagando aquilo que nos factos culturais, existe de profundamente humano, arquetípico, nos dinamismos simbólicos e míticos.

c) Essa abordagem científica alternativa, transdisciplinar, aberta à complexidade plural da psique e da cultura poderá, todavia, ir ao encontro de uma “ciência única do Homem”, ou daquilo que existirá afinal, de unitário no ser humano, transcendente a qualquer relativismo.

d) Mas este posicionamento, implica igualmente colocar em evidência aquilo que é específico e caracterizador dos sujeitos da história, na sua ação pluridimensional, no contexto das diferentes sociedades histórica e geograficamente condicionadas (políticas, económicas, sociais, culturais, religiosas, artísticas ou outras).

e) Assim, no que refere ao “complexo mitológico português”, ao mesmo tempo que se reitera um amplo e abrangente potencial heurístico e hermenêutico, articulando o longo processo cultural (mitológico e arquetípico) do nosso imaginário profundo, possui ainda, uma enorme riqueza estética, cénica e teatral nas eventuais atualizações rituais. Acresce, para além disso, a constante afirmação dos mesmos princípios e valores, afinal, em tudo idênticos (no seu humanismo, na flexibilidade adaptativa, ética e mora), aos adotados na nossa constituição (Anderson).

f) Facilmente se apreenderá, que o vasto complexo mítico-simbólico-ritualístico, de Portugal, cuja especificidade estrutural, evolutiva e operativa, é indiscutível, mostra-se igualmente, ecumenicamente abrangente, fazendo parte sem reservas, do imaginário europeu. Está, com efeito, presente, tanto nas narrativas míticas dos diversos países, como nos respetivos pragmatismos ritualísticos, embora recobertas de formas metafóricas muito diferenciadas. Só para dar um exemplo: o mito Sebástico do regresso do rei da sua ilha Encantada, tem sua conotação simbólica, com o mito celta do regresso do Rei Artur, da ilha de Avalon. Não é admissível, portanto, a ideia (em alguns) de que a “bacia semântica” do universo mítico de Portugal, tenha escassa abrangência, porque apenas, localmente situada!!!. (A bibliografia de que já dispomos, no presente, é imensa desmentindo claramente aquela asserção). Isto permite colocar a hipótese de um isomorfismo mítico-simbólico relativamente a Portugal e outros países.

g) EM SÍNTESE: O RITO PORTUGUÊS CONFIGURA UM RITO EUROPEU ADOPTÁVEL NÃO APENAS A DEZ MILHÕES DE PORTUGUESES, MAS IGUALMENTE EXTENSÍVEL AOS OUTROS IDÊNTICOS MILHÕES DA DIÁSPORA PORTUGUESA, para não mencionar ainda, as outras dezenas de milhões de cidadãos, que identitária e afetivamente, por laços históricos, culturais familiares ou outros, se encontram (mais que não seja, ainda que remotamente) ligados a Portugal e ao seu imaginário.

h) Os Temas e pistas de investigação integrando a mitografia portuguesa (e que se atualizam algures, em rituais populares/eruditos), são inúmeros: Citemos como meros exemplos, os mitos fundacionais da Nação Portuguesa (Viriatino e Afonsino), as narrativas sobre os nossos vários lugares mágicos e religiosos; a saga portuguesa dos Descobrimentos e as analogias com a demanda do Graal; as extraordinárias proezas do heroísmo navegador; os milagres e as manifestações do sagrado; os nossos intérpretes e protagonistas dos Fidelli d’Amore e o 515; a Cavalaria Espiritual e o Templarismo; o culto de Santa Isabel, do Espírito Santo e a revolução Franciscana; a arte Cisterciense e Manuelina; as diversas formas do mito Sebástico, o Quinto Império e o Império Português; as Ordens Religiosas Militares e o contacto de culturas na ligação Ocidente e Oriente; as evocações de personagens relevantes estudiosos incansáveis da temática: (artistas, poetas, literatos, filósofos, cavaleiros, pensadores) :Lima de Freitas, Fernando Pessoa, Camões, D. Dinis , Santa Isabel, D. João de Castro, Fernão Álvaro do Oriente, Duarte Pacheco Pereira, Gil Vicente, Infante D. Henrique, Regente D. Pedro, João II, Padre António Vieira, Marquês de Pombal, António Teimo, Sampaio Bruno, António Quadros, Agostinho da Silva e dezenas de outras).

i) Apenas algumas notas sobre um outro mitema importante para nós, ou seja, o mito Pombalino: os primórdios da sua instauração remetem para a exaltação e culpabilização da figura do Marquês, surgido desde logo no reinado de D MARIA I (viradeira) na sequência da querela (que se prolonga até aos nossos dias). Mas é no decurso dos séculos XIX e XX, que os debates sobre o papel político e reformista, do Marquês assumem invulgar dimensão nacional e até internacional. Durante todo o século XIX as classes pensantes dividiam-se em dois grupos bem distintos (filo pombalinos como o ministro Sousa Coutinho e anti pombalinos como o Visconde de Vila Nova da Cerveira. O protagonismo do Marquês foi, pelos primeiros, sistematicamente valorizado e entendido como o advento de um regime e de uma nova ordem social, abalando e destruindo uma estrutura absolutista e clerical lida como responsável pelo nosso pungente atraso. No processo histórico da implantação do regime liberal, a maçonaria foi determinante na construção da imagem do “herói “restaurador do orgulho e prestígio de Portugal, abrindo portas ao progresso e á felicidade. Não existem provas irrefutáveis da sua pertença à Augusta Ordem, mas o papel determinante no controlo e cerceamento do poder e privilégios, da classe clerical, a sua política antijesuítica e antiultramontana, pareceu no século XIX, que estaria em relação com um patrocínio de um ideário secularizante e laicista, que a maçonaria e posteriormente, os republicanos, tentaram implementar. São exemplo disso as grandes comemorações do centenário em 1882 e a implantação na Rotunda do Grandioso Monumento (1934), a Carvalho e Melo. Nessa perspetiva poderemos considerar estamos perante o mito heroico e luminoso, mito pessoal, cuja construção obriga a expurgar factos históricos que se mostrariam pouco adequados a tal processo mitificante. Mito pessoal e transtemporal construído gradualmente pela Maçonaria, pelos movimentos laicistas e anticlericais fazendo de Pombal um Prometeu abrindo o país ao progresso, à ilustração e ao conhecimento, morte ao obscurantismo e ao fanatismo. Enfim uma “renovação”, restaurando uma Idade do Ouro perdida, reencontrando o mesmo sentimento de gloriosas épocas precedentes (época do Renascimento e das Descobertas). No imaginário coletivo a imagem mitificada de POMBAL, PODE FUNCIONAR COMO MOTOR MOBILIZADOR E REVITALIZADOR PARA A ACÇÃO, papel que já aludimos de início.

3 – Por isso reiteramos a presença necessária dos mitemas (complexos míticos) portugueses, na estruturação do RITO e na implementação dos RITUAIS (Lógica estrutural, proposta sequencial de episódios, organização dos diversos scriptos e textos explicativos, cenarização, logística, etc.)

4 – Exemplifiquemos melhor, chamando à colacção o complexo processo mítico, da IDADE DO OURO:

a) O tema está presente no universo imaginário universal e claro está, integra a mitografia portuguesa conotando em última análise, com a representação de uma narrativa de esperança, face às infelicidades e insuficiências da quotidianidade, às vicissitudes que ameaçam a existência, a expectativa nostálgica de um futuro promissor (“que virá um dia”).

b) Tem origem numa tradição muitíssimo mais antiga que a época clássica, certamente originária do extremo oriente, embora a tradição Ocidental tenha atribuído a origem, a Hesíodo (séc VIII, A.C.), o qual, na sua poesia, recorda uma história da humanidade, em que os Deuses teriam criado cinco raças de homens (raça de Ouro, Prata, Bronze, raça de heróis e raça de Ferro). A primeira Raça a ser criada – Raça de Ouro – os homens viviam sem preocupações, não conheciam nem desgostos nem misérias, não precisariam de trabalhar, apenas conheciam a paz e a felicidade, possuíam toda a gama de bens, etc….

c) Esta humanidade originária, beneficiando da indulgência divina, desaparecerá sob a emergência de tempos cada vez mais difíceis nas idades seguintes, em degenerescência constante, até ao aparecimento da sinistra Idade do Ferro.

d) Estamos em presença de uma memória coletiva que, vindo do fundo dos milénios, irá ser constantemente revivida ao longo de gerações, nas obras dos filósofos, pensadores, poetas, artistas. È por demais conhecido o mito da Atlântida (ou a Utopia de Platão) ou Écloga de Virgílio. Todos ele tem especial interesse para nós, nomeadamente, Virgílio igualmente protagonista na Divina Comédia, guia solidário na caminhada iniciática de Dante e por na Quarta Écloga, anunciar o nascimento de uma criança (antevisão do nascimento judaico-cristão de Jesus), vendo nesse acontecimento, o regresso a uma próspera felicidade da Idade do Ouro. (o menino Jesus é o mensageiro do paraíso perdido e reencontrado.)

e) Hesíodo, Platão Virgílio e imensos outros estão no centro de um complexo conglomerado de conotações e significações entrelaçadas constituindo um património mítico da humanidade.

f) Então, a Idade do Ouro evocando um passado longínquo, (uma meta história), um tempo originário do devir humano, inscreve-se afinal num tempo circular de um eterno retorno, abrindo caminho à esperança de um renascimento através do aparecimento de um personagem providencial ou um acontecimento especial (pensemos no messias, nos nossos D. Sebastião, João IV, Sidónio Pais, Salazar e até acontecimentos especiais como a nossa adesão à Comunidade Europeia).

g) A Idade do Ouro, (pagão, pré-cristão, ou o paraíso cristão) interpenetrando as diversas texturas narrativas, despoletam um prodigioso imaginário no nosso processo cultural (Português e Europeu), detetável nas prodigiosas realizações culturais da nossa civilização: Belas-Artes, Letras, Poesia, Belo-Canto Arquitetura (Românico, gótico, renascença, barroco, etc.) materializando e rememorando as aspirações a um reencontro num futuro que se aproxima.

h) O universo mítico não é suscetível de ser apreendido pelas categorias próprias do pensamento positivo racional-prático típico do conhecimento cientifico da modernidade. A “verdade” do mito, não é uma verdade literal, pois que integrando o maravilhoso e o inverosímil, não se contem na linearidade do tempo histórico, nem na espacialidade de um espaço determinado. Rompendo com o tempo e com o espaço o seu valor, conota a eternidade e o infinito.

i) Os indivíduos desde sempre, não enfrentam o mundo apenas providos do conhecimento objetivo e positivo, ele igualmente usa e interioriza, o complexo das suas faculdades plenas (necessidades, aspirações, desejos, memórias, imaginação, emoções, sentimentos, atribuição de sentidos ás suas experiencias e coisas que ignora. O confronto do ser humano, com o mundo que ele habita, sempre o conduziu (sob as mais diversas formalizações), a um “conhecimento para além do conhecimento”.

j) A Idade do Ouro, na sua conotação pansémica (infinitas significações) converge na evocação de um tempo glorioso, substituto de um tempo histórico, visível, finito, imperfeito na sua operacionalização instrumental. Os seres humanos buscam percecionar um outro espaço-tempo origem e fim dos fenómenos para os quais ainda não existe nome, percecionar enfim o que está para além do dizível e do visível

k) Na procura de uma verdade plena, os indivíduos designavam por GNOSE a possibilidade de aprofundar o conhecimento existencial, enquanto totalidade (envolvendo a vida, a conduta, o destino, a esperança de alcançar a luz espiritual). A experiencia Gnóstica, implica a insatisfação da existência humana, á qual urgia dar novo sentido. A superação do sentido da decadência e de uma existência encerrada na imperfeição e no déficit de uma materialidade, exigia a concepção de uma escatologia, que desse corpo á esperança de uma alternativa: uma IDADE do OURO.

l) Lembro Breda Simões, evocando a ideia de Império, enquanto expressão da passagem do caos ao cosmos, exercendo o imperador a sua dimensão de pontífice, entre uma empíria terrestre e a inteligibilidade cósmica.

m) A ideia de Império, acabará por significar o advento do Espírito na perspetiva cristã; ou um advento profético e apocalíptico em JOAQUIM DE FIORE, mais o prolongamento da nostalgia, implícita na Cidade de Deus de Santo Agostinho. Este no célebre tratado, contrapõe a imperfeita cidade dos homens à gloriosa cidade de Deus: A Jerusalém Celeste, em que a Igreja Universal prefigura a cidade dos justos prometida pelos profetas. Mas para ele, essa cidade dos justos não se situa nos fins dos tempos: ele já existe, como também já existe essa Idade do Ouro: no CORAÇÃO dos HOMENS de BOA VONTADE. Nesta perspetiva, existe uma esperança, se se admitir que se pode reviver essa Idade do Ouro, nos interstícios da Idade do Fero.

Existe uma osmose (que aqui não trataremos) entre as idades Joaquimitas (Pai, Filho e Espírito Santo, os cinco Impérios que se sucedem (Sírio, Persa, Grego, Romano…e o advento e um quinto império…que mais tarde se afirmaria (acreditaria/ demonstrar-se-ia), ser o português.

n) A época medieval reconhece-se no ideal monástico (o mosteiro era a representação miniatura da Jerusalém Celeste), na comunhão contemplativa e nas normas da cavalaria e da cruzada. O Renascimento, inspirado na Antiguidade, deixa apreender-se no sonho de uma Idade do Ouro, patente nas academias humanistas ou no ideal pastoril, protestando contra a hegemonia da imperfeição, insuficiência, corrupção e mentira, da civilização urbana. Possuímos suficientes exemplos de poetas, que exaltam a vida simples, em contacto com a natureza, em tudo evocando uma utopia regressiva.

5-Este mito imemorial da Idade do Ouro, inscrevendo-se nos resquícios mais profundos da mentalidade Indo-europeia, impregna igualmente, profundamente, a sensibilidade deste nosso povo ancestral de Portugal, até aos dias de hoje.

6 – São detetáveis mitemas (pequenas unidades significativas cujo conjunto constituem o Mito), essenciais do Mito da Idade do Ouro:

-O mitema do rei cujo regresso é aguardado como salvador, a um país doente alquebrado. Da simbologia associada ressalta a “arvore seca” tão visível em alguns dos nossos monumentos (Convento de Cristo).

-O mitema do rei escondido numa ilha ou montanha (O rei Artur em Avalon, ou o reino escondido do Prestes João);

-O mitema do rei proveniente de um país outrora, de concórdia, abundância, riqueza e paz. Estamos perante o arquétipo da cidade feliz, da Terra Prometida, da concretização na terra da Jerusalém Celeste.

-O mitema do regresso do rei, da “ressurreição”, investido de um caracter taumatúrgico e que coincide com a taumaturgia crítica paraclética. Aqui a articulação com a “questa” (ou demanda e posse) do Graal, o qual por ser iluminado e iluminante, se associa ao Espírito Santo.

-Os precedentes referencias sobre o Mito da Idade do Ouro, reenviam para outras estruturas míticas, realimentando-se mutuamente: O Mito Sebástico; O Mito Isabelino da Transmutação/ Transformação Alquímica? O Templarismo e o Mito da Cavalaria Espiritual; O Mito da Demanda e dos Descobrimentos… e muito mais. Nesta perspetiva, todas elas, não serão mais que partes essenciais dos mitemas em que se funda a extrema riqueza e complexidade da tradição mítico-espiritual portuguesa.

-Muitos investigadores na esteira de Fernando Gil (Modos de Evidência (1998, atribuem ao Mito um estatuto epistemológico de “Alucinação Mental” ou processo alucinatório da consciência, ou seja, um fundamento categórico da crença, que como tal, não necessita ser provada. O Mito assim concebido, é algo intuitivo e não experimental e que no caso de Portugal se integrou plenamente na nossa história colectiva. Com efeito, figuras proeminentes da nossa história, como por exemplo, D. João de Castro (neto do vice-rei) ou o padre António Vieira face a terríveis adversidades políticas e sociais (desaparecimento ou morte do rei, perda independência e humilhação patriótica perante o domínio castelhano, cruzam as suas narrativas com mitos pré-cristãos previamente existentes, o mito celta do rei Artur, o mito milenarista de Joaquim de Fiore e o mito do Encoberto e do Quinto Império integram um processo de hibridismo (e/ou sincretismo) ?

Em qualquer dos casos, opera-se uma suspensão e desqualificação do tempo histórico decadente, substituindo-o por um tempo mítico que a todo o momento pode ser reativado. Opera-se então, uma espécie de catarse coletiva, com recurso a um mecanismo compensatório, em ordem à estabilização e superação do (s) conflito(s) na mente individual e coletiva. O mito assim, surge como um acto de criatividade, ou acto coletivo onírico, delirante, superando pelo sonho o sentimento de um profundo mal-estar dos portugueses que não encontram explicação racional e lógica, para o permanente estado de déficit geral da nação (económico, político, educacional, militar, etc.) e de insucesso, a que por várias vezes, ao longo da nossa história, as nossas elites desde o século XVII, nos têm conduzido. Os cidadãos projetam essa explicação alucinatória, para o domínio da Providência divina e do messianismo.

Eduardo Lourenço, (no dizer de Miguel Real) definia o mito sebástico, como o “máximo de existência irrealista de Portugal” … e também, como o “máximo de coincidência com o nosso ser profundo…”. Mas atenção! O mito possui igualmente uma vertente positiva. Pode constituir um potente motor para a acção, para a superação do torpor e do drama, para a procura determinada e corajosa do sucesso (v. os Descobrimentos, a Restauração, as lutas Liberais, a Diáspora Portuguesa, etc.).

Com um enorme abraço do FC.

Pensar Maçonaria

Liberdade, igualdade, fraternidade. Sabedoria, força, beleza.

Todos sabemos que cada uma destas palavras tem para os maçons um significado especial. Procurando ir ainda mais longe, podemos até afirmar que cada uma destas trilogias de palavras, por assim dizer, é afinal expressão de múltiplos significados, estando na génese do pensamento maçónico e também na base de todos os nossos procedimentos rituais.

Mas quantas vezes ouvimos dizer que as palavras estão gastas? Muitas vezes e em boa verdade, esse é o resultado e o preço a pagar, pela desilusão e o descrédito na palavra dos homens.

Pois bem, para que as palavras não fiquem gastas, é preciso dar sentido às palavras. É preciso cumpri-las. É preciso que sejamos, todos e cada um de nós, homens de carácter, de verdade e compromisso. Em todas as circunstâncias e esferas da nossa vida, ser homens de palavra.

É essa pois, a desafiante viagem que nos impõe a maçonaria. Uma viagem solidária, muitas vezes solitária, pelo complexo labirinto do nosso Templo Interior. Um caminho de Luz, de reflexão, em paz e serenidade, trabalhando e polindo a pedra bruta, desenvolvendo em nós e entre irmãos, as melhores capacidades pessoais, humanas, culturais e espirituais de cada um.

É esta busca incessante da sabedoria, da razão e da justiça, que nos distingue de todas as organizações profanas, sejam elas religiosas, sociais, filantrópicas ou até políticas. Nós somos uma fraternidade iniciática, formada por homens bons, livres e honrados, onde prevalece a obediência a valores morais, humanos e filosóficos, que são universais e inalienáveis.

Por isso, em consciência, pode um verdadeiro maçon trair a confiança de um irmão, de um colega, ou mesmo da pessoa que mais ama? Pode um verdadeiro maçon, em consciência, defender profanamente uma sociedade egoísta, desigual e discriminatória? Pode um verdadeiro maçon, em consciência, alimentar o ego e a vaidade, ao ponto de colocar o supérfluo acima do essencial, ou a adoração do dinheiro, acima dos mais elementares valores da justiça, da solidariedade e da condição humana? Pode um verdadeiro maçon, em consciência, troçar e explorar gratuitamente as fraquezas ou fragilidades de um irmão ou de qualquer outra pessoa?

MMQQII, em consciência e verdade vos digo, que a resposta é não. O Maçon deve ser, sempre e cada vez mais, entre os seus irmãos e perante toda a sociedade, essa grande referência de valores morais, culturais e humanos. E assumir verdadeiramente, sem complexos ou preconceitos, na sua prática quotidiana, em todas as situações da vida, essa sua condição de homem livre e cidadão exemplar. Um Ser portador de Luz, de amor, de tolerância e de sabedoria, para todos os que o rodeiam no mundo profano: família, amigos, colegas, colaboradores.

Pensando e refletindo bem, é essa afinal a principal razão de estarmos aqui, vivendo a fraternidade e trabalhando em egrégora.

Pelo bem de Portugal, por um Mundo melhor, pela Humanidade. E isto não são apenas palavras, porque como bem sabemos, as palavras estão gastas.

É preciso cumprir as palavras. O futuro é hoje. É hora agora.

E a mudança começa em cada um de nós.

Em suma, não basta ESTAR na maçonaria, é preciso SER maçonaria.

F., V:. M:.

17-10-6016

(Dia Mundial da Erradicação da Pobreza)

GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL

NOTA de ABERTURA

A construção e revigoramento do processo identitário da Grande Loja Unida de Portugal (GLUP), faz apelo à instauração de dispositivos de memória, em ordem à preservação das vivências individuais e colectivas, que condicionando a sua instauração, permitem elevar nas consciências, os valores implícitos nos eventos e narrativas fundadoras, que vão sendo implementadas.

Nessa perspectiva, um desses instrumentos assumirá certamente, a forma de uma publicação periódica, a qual, não obstante a sua simplicidade, procurará transmitir sinteticamente, o assinalável dinamismo global que vem caracterizando, o processo institucional da GLUP.

-Das diversas hipóteses de formatação, optou-se pela adopção de um duplo suporte (digital e o tradicional suporte em papel) o qual, se a primeira alternativa, permite uma divulgação e mais ampla acessibilidade, por outro lado, o suporte tradicional, permitirá a auscultação imediata, a quem aceda às nossas instalações, bem como, o estabelecimento de contacto mais formal, com outras instituições.

-A formatação desta publicação (boletim) inaugural, independentemente das inúmeras opções estéticas, imagéticas, comunicacionais e de design, ou ainda, o confronto com condicionalismos de outra ordem, parece aconselhar, ao menos por agora, uma edição de dimensão limitada que a componente técnico-artística, certamente irá propor, aos centros de decisão. Mas, não obstante, será interessante, disponibilizar nas nossas salas de convívio e de leitura, alguns exemplares para consulta dos seus conteúdos, já que, em certa medida, eles podem possibilitar uma reflexividade crítica ao leitor, como igualmente, permitirem que a lembrança do nosso projecto sonhado, se reforce na luta contra o esquecimento.

Procurou-se alguma diversificação dos conteúdos, dentro dos objectivos desta publicação, não se limitando apenas à divulgação de pranchas e trabalhos dos diversos autores, mas igualmente abrangendo, vários outros documentos e informações, e também, todos os eventos e factos relevantes na dinâmica da nossa instituição. Porém, dada a limitada extensão disponível, apenas serão publicados, alguns trabalhos e pranchas, bem como fotos ou outro material, ficando a produção excedentária, registada em arquivo, para publicação no final do ano maçónico (provável data da edição de um extenso e completo anuário da GLUP), em que serão editados provavelmente. todos os materiais, entregues em Arquivo.

-Fica assim bem patente, pelo que se referiu, a necessidade de intervenção de todos, com preciosos comentários, sugestões, críticas, e aconselhamentos, para além da produção textual de própria autoria, ou de recensão bibliográfica (incluindo a de natureza profana), abrangendo todos os campos do conhecimento.

O nosso propósito, passa então, por exortar reiteradamente a máxima participação de todos, já porque um Boletim (tal como uma R:.L:.), representa sem dúvida, o resultado de uma trabalho colectivo amplamente participado por todos sem excepção.

– Se pensarmos que igualmente neste domínio, se joga a construção de uma imagem positiva   da nossa A:.O:. e que um simples publicação, actuará como antecâmara introdutória, de uma realidade que idealizamos e que estamos a construir, então, que ela seja entendida pelo seu ineditismo e pela maneira diferente de fazer e estar e por um contributo notável no contexto nacional e internacional.

Aguardemos então o vosso acolhimento, já que nessa construção, todos não somos demais!

Antecipadamente um enorme obrigado e um Abraço Forte.

FC

Símbolo e Silêncio (A G.’.D.’.G.’.A.’.D.’.U.’.)

Venho duma Loja de São João, onde se exalta a Virtude e se combate o Vício.

Venho aqui vencer aqui as minhas Paixões, submeter a minha vontade e realizar novos progressos na maçonaria.

Aqui do lugar onde me encontro, venho falar-vos de símbolo e silêncio. E de como sinto que o meu meu caminho para a virtude se pode percorrer apendendo os símbolos em silêncio.

Símbolo é o que “está em vez de”. Aliquid stat pro aliquod e determina algo, através do conhecimento do qual, se pode conhecer algo mais.

Símbolo remete para uma ideia de representação, de um quod ínsito à natureza da linguagem. É pelo símbolo que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade – ou indizibilidade – que não se conforma nunca plenamente no que é visível – ou dizível.

O símbolo designa e supera. É através dele que se suplantam as condições de enunciação permitindo ao aprendiz sair de si. Permitindo-lhe exumar-se ao tempo finito da vida, o nosso Kronos, e ao mesmo tempo aspirar a transformá-lo, pela aprendizagem, em memória. Podendo assim aspirar ao tempo infinito da oportunidade, ao Kairos.

O símbolo, estando na génese da linguagem, é trave mestra para para o conhecimento, e vértice da imortalidade; e a linguagem, por isto mesmo, um objetivo a que se pode aspirar apenas se nosso elevar-nos espiritualmente, combatendo e vencendo as paixões que nos prende ao mundo material e nos iludem, suplantando desejos e vontades que não são mais que produto de egoísmo intrínseco, próprio de qualquer alma em estado bruto, a quem é, por virtuosidade maçónica, concedida a graça do silêncio.

Pois como poder da cobra está na sua língua, o poder do símbolo reside no silêncio.

Neste lugar onde me encontro, aqui entre colunas, o meu tempo é agora o Kairos, e esta, sendo a minha primeira voz no templo, é simultaneamente a minha primeira vez e a minha primeira oportunidade.

Neste processo de aprendizagem iniciático, recebo hoje esta responsabilidade nova, que consiste em poder abandonar por momentos o privilegio concedido do silêncio, e poder partilhar convosco aquilo que, do meu lugar, tenho podido compreender.

Pude ouvir e observar, num processo sem som, signo e símbolo, e refletir interiormente na sua importância. Pude aprender, sem intervir. Crescendo interiormente, na esperança de poder reconhecer a verdadeira sabedoria.

Sou pedra bruta, mas será que sou também matéria dúctil?

Procuro polir-me, libertar-me das minhas arestas profanas, que nos dias comuns da vida quotidiana, limitam a o meu conhecimento e dificultam a minha compreensão do mundo.

É aqui no templo, de onde emana toda a virtude, que buscamos a sabedoria que nos permite alcança-la, e só então depois, conseguir compreender como é que a linguagem a pode fixar.

Aqui do lugar de aprendiz onde me encontro a Força é muda. Porque em mim, apenas muda, ela pode almejar a ser virtuosa.

Aqui busco a virtude, sem a graça da linguagem, sentindo por dentro a sua Força, ainda só potencia, ainda sem uma forma consumada.

Busco a virtude na humildade descalça da minha condição, como a pedra bruta busca a sua forma lisa.

Aqui neste lugar onde me encontro procuro encontrar em nós, que sou eu em vós, e na dinâmica e simbolismo do nosso ritual, o caminho que me permita abrir a mente para a realidade de um mundo superior, podendo beneficiar das energias positivas de todos vós, pois só assim poderei vencer os meus pensamentos negativos.

Saiba eu percorrer em silêncio o caminho dos símbolos!

Que a sabedoria presida e a força complete, o que a beleza decora.

21 Novembro 6016

A Oriente de Sintra

JMD

À Mulher de César…

É inegável a importância que a comunicação possui hoje em dia, sabido que tudo em todo lado e em qualquer circunstância comunica. Contudo é um erro pensar que tal é uma consequência de qualquer descoberta, novidade ou evolução da nossa sociedade moderna. Contrariamente ao que se possa pensar, a comunicação sempre foi importante, a diferença reside apenas no facto de hoje termos consciência de uma dimensão da comunicação que outrora não havia e por isso da possibilidade e necessidade de a manipular.

O nome de um homem nada significa sem as associações e inerentes interpretações decorrentes do que faz, de como se comporta, do que acredita, da sua personalidade, tanto quanto tal é mais ou menos coerente com a sua apresentação, inteligência e as palavras que profere, ou seja, a imagem que projecta, ao que se acresce ainda a sua capacidade financeira, os seus dotes e particularidades físicas, a sua casa, o seu carro, a família ou seja, as suas características mais racionais – o seu “Nome” é o somatório de tudo isso.

E tanto quanto maior for a relevância, coerência e consistência entre personalidade, imagem e posses de qualquer homem, maior será a sua reputação e o valor do seu “Nome”, pelo que ao gerir esses vectores, gere-se a sua reputação.

Os publicitários e marketeers partem do principio que qualquer marca é como um nome e assim gerem-nas de modo a irem de encontro aos desejos e preferências dos públicos que pretendem as adquiram.

Os Jornalistas e afins são responsáveis pelo importantíssimo papel informativo da comunicação, mas também eles gerem os vectores similares da personalidade, dos factos e dos acontecimentos de forma semelhante (e nem sempre com propósitos tão identificáveis).

O papel do Grande Correio-Mor é de gerir a comunicação da GL:. e garantir a máxima harmonia entre o que é a nossa obediência e a imagem que projecta junto de todos que com a mesma interagem, seja a que nível for. Garantindo que a nossa obediência é relevante, coerente e consistente com o modo como é percepcionada, afinal e como já diziam os antigos, “À mulher de César não basta sê-lo, tem de parece-lo também”.

VGV, Grande Correio-Mor G:.L:.U:.P:.

Notitiam Inauguralis

Corre o sec. XXI, era das e-iniciativas. A nossa Grande Loja Unida de Portugal não pode ficar indiferente, face a esta verdadeira revolução na forma de comunicar.

O nosso Boletim que se inicia neste mês e que se prevê com uma periodicidade bi-mensal, procura inscrever-se num tempo de desafios. Com esta publicação, damos mais um passo importante na nossa estratégia de comunicação, com três grandes objetivos que se interrelacionam. Um primeiro objetivo centra-se na divulgação do trabalho desenvolvido pela Grande Loja Unida de Portugal nos vários planos em que exerce a sua atividade institucional e de produção e difusão do conhecimento. Um segundo objetivo é difundir a diversidade do trabalho realizado pelas Lojas e seus obreiros numa perspetiva formativa e ritual. Por último, um objetivo que se liga com o desígnio de contribuir para potenciar a ação de todos os Grandes Oficiais e Veneráveis Mestres, como coletivo de trabalho, de reflexão, de memórias, de partilha, de construção e de solidificação de práticas, saberes, afetos e relacionamentos fraternais, artísticos, intelectuais e pessoais.

A Grande Loja Unida de Portugal, apresenta uma nova proposta de valores à sociedade portuguesa. Renovação com respeito pela tradição, revitalização da imagem externa e interna da maçonaria. Definimo-nos como uma escola de líderes, onde elegemos como objetivos principais o humanismo, a solidariedade social e a fraternidade, a educação e a cultura.

Foi nosso propósito desde a consagração da nossa Grande loja Unida de Portugal, refundar os verdadeiros princípios e valores da Maçonaria Regular, porquanto este boletim deverá pela qualidade dos obreiros da nossa Augusta Ordem, dignificar, reforçar e conferir mais evidentes capacidades de afirmação à Maçonaria, para que todos Unidos saibamos construir uma Instituição que possa ser olhada com admiração pelo que fazemos e pelo que defendemos.

Enquanto Grão-Mestre, nunca esquecendo que serei sempre um eterno Aprendiz, como um de vós que sou, incentivo-vos a participarem de forma regular e interventiva neste nosso Boletim, convicto de que o esforço de abraçar este nosso projeto deve estar orientado para o primado da Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Em terra, como no mar ou no ar.
Trabalhando pela Paz e sempre pela dignidade humana.
Onde quer que exista um Maçon, aí estará presente o melhor de Portugal.

Paulo Cardoso

Respeitabilíssimo Grão-Mestre, Grande Loja Unida de Portugal

Dia do Maçon e da Maçonaria

Respeitabilíssimo Grão-Mestre,
Meus Irmãos, Convidadas e Convidados,

Este ano, comemoramos os 300 anos da data do nascimento da primeira Obediência maçónica, a Grande Loja de Londres, em 1717, a que se seguiu, 6 anos mais tarde, a divulgação dos regulamentos considerados o fundamento e pilar da maçonaria moderna, as Constituições de Anderson.

Hoje, neste jantar de confraternização, a que chamamos ágape, palavra de origem grega que significa AMOR, comemoramos o DIA DO MAÇON E DA MAÇONARIA.

Recordamos um conjunto de datas significativas para a Maçonaria Portuguesa:

  • 1797, há 220 anos, primeira Loja nativa portuguesa;
  • 1802, há 215 anos, nasceu a primeira Obediência portuguesa, o GOL;
  • 1980, há 37 anos, foi instalada a primeira entidade maçónica mista, o ramo português do Direito Humano;
  • 1983, primeira Loja feminina portuguesa, a Loja Unidade e Mátria, na jurisdição da Obediência feminina francesa;
  • 1985, há 32 anos, foi constituída a primeira Obediência que teve como objetivo a regularidade em Portugal, a GLP – Grande Loja de Portugal;
  • 1991, há 26 anos, foi consagrada a primeira Obediência regular portuguesa, a GLRP;
  • 2007, há 10 anos, foi consagrada a primeira Obediência feminina portuguesa, a Grande Loja Feminina de Portugal;
  • 2016, há 1 ano foi constituída a GLUP – Grande Loja Unida de Portugal, que reúne um conjunto de maçons fundadores da regularidade no nosso país e de jovens maçons, centrados na manutenção da Tradição, na defesa dos Princípio e dos Valores que nos regem e na procura da Inovação como fatores integrados em que assenta a formação que praticamos, a bem da Maçonaria Universal, ao serviço de Portugal.

A Grande Loja Unida de Portugal associa-se a uma efeméride da maçonaria internacional que, por via da proposta de um maçon português, passou a ser universalmente aceite como o DIA DO MAÇON E DA MAÇONARIA.

  • A 19 de Fevereiro de 1994, Fernando Teixeira, à data Grão-Mestre da G.L.R.P. – Grande Loja Regular de Portugal, propôs, durante uma reunião de Grão-Mestres, em Washington, que o dia 22 de fevereiro, data do nascimento de George Washington, passasse a ser celebrado pela Maçonaria Universal, proposta que foi aprovada por unanimidade.
  • Hoje, 285 anos depois, recordamos o nascimento, em 1732, do maçon George Washington enaltecendo o seu papel de co-autoria da Constituição americana, de 1787, documento de forte influência do ideário maçónico, (a precisar, atualmente de ser melhor aplicada por quem de direito). Foi o 1°. Presidente dos Estados Unidos, de 1789 a 1797. Tendo sido reeleito para um 3°. mandato, recusou “para não dar mau exemplo”.

Nós, desde 1995, promovemos, todos os anos, em 22 de fevereiro, este jantar de confraternização, passando a palavra e o convite a Irmãos de todas as Obediências que queiram estar presentes.

Brindemos, pois, a todos nós e a todos aqueles que, quer estejam em terra, no mar ou no ar, tenham um rápido restabelecimento para os seus eventuais sofrimentos e um pronto regresso a suas casas, se assim for o seu desejo. A TODOS OS MAÇONS.

JMM, Grão-Mestre Adjunto

São Jorge e o Rito Português

Informação sobre o São Jorge e o Rito Português, apresentado no dia 25 de Abril 2015, na Cappadocia/Turquia, (local onde nasceu o Santo Ecuménico) no âmbito do IV Simpósio Maçónico Internacional, com a presença de cerca de 600 pessoas.

Há provavelmente poucos dias na história da Humanidade onde não houve conflitos entre povos.

Cada vez que uma Guerra acontece, há a necessidade de Entendimentos, Diálogos e Pontes.

São raras as “Pontes” que existem, sem a mácula de interesses pessoais ou institucionais.

Uma dessas raras pontes é São Jorge !

Não estamos apenas a falar dum homem nascido na Capadócia, que foi um soldado Romano e que por causa da sua fé se tornou Mártir e depois Santo.

Estamos sim, a falar do Paradigma dum Homem que uniu gente de diferentes raças e distintas culturas e religiões, exatamente o mesmo que Maçonaria almeja !

No novo Rito Português, São Jorge assume-se na plenitude da sua dimensão Espiritual e Ecuménica.

São Jorge é um Santo Eclético. Ele é conhecido e respeitado pelos muçulmanos, bem como venerado pelos cristãos em todo o Oriente Médio, do Egito à Ásia Menor.

Há uma tradição na Terra Santa, que leva cristãos e muçulmanos ao santuário de São Jorge em Beith Jala. Os Judeus também acreditam na crença de que o profeta Elias foi lá enterrado.

Pensa-se que os Cruzados ingleses, que ajudaram o Rei Dom Afonso Henriques a conquistar Lisboa, em 1147, terão sido os primeiros a trazer a devoção a São Jorge para Portugal. No entanto, só no reinado de Dom Afonso IV de Portugal o uso de “São Jorge!”, como grito de batalha, se tornou regra, substituindo o anterior “Sant’Iago!”.

O Santo Dom Nuno Álvares Pereira, Mestre de Cerimónias do Reino, considerava São Jorge o responsável pela vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota. A Ermida de São Jorge testemunha esse facto. O Rei Dom João I de Portugal era também um devoto do Santo e foi, no seu reinado, que São Jorge substituiu Santiago como padroeiro de Portugal. Em 1387, ordenou que a sua imagem a cavalo fosse transportada na procissão do Corpus Christi.

Assim, séculos mais tarde, chegaria ao Brasil.

A SIMBOLOGIA INICIÁTICA DE SÃO JORGE

A simbologia contida na imagem de São Jorge, resume todo o trabalho interior a ser feito pelo Homem para estar em sintonia consigo próprio e com os outros, bem como ascender à sua Individualidade, ao seu Eu Superior.

Nesta sua imagem, montado num cavalo branco, vence um grande dragão. O Cavaleiro, o Corpo Mental, domina o Corpo Físico (o Dragão) e controla o Corpo Emocional (o Cavalo).

Apenas depois desta luta (batalha interior) consegue salvar a Dama (corpo espiritual), ou seja, sintonizar-se com o seu Eu Superior.

Esta sintonia pretende atingir não apenas uma ascensão espiritual, mas também um aumento da sua vibração energética e consequentemente uma evolução na sua vida terrena e material (o que está em baixo é como o que está em cima).

Quando invocamos São Jorge não estaremos somente a invocar o seu arquétipo protetor mas também a perpetuar a sua mensagem de harmonização do Homem e da sua evolução em todos os aspetos.

É pois esta a intenção profunda da Aclamação Portuguesa, um gesto fraternal de Amor Universal.

A Aclamação (São Jorge) tem dois momentos que se integram, o Venerável Mestre, do Oriente, invoca, as colunas confirmam.

É uma Aclamação que deve ser dita com intensidade e que pretende grande impacto energético.

O Punho Fechado Levado ao Coração

A saudação do Rito Português, o punho fechado levado ao coração, recorda, simbolicamente, que o nosso Espírito é entregue a São Jorge, para que os trabalhos decorram de forma Justa e Perfeita. Este gesto simboliza também a abertura do chacra cardíaco, o chacra do Amor.

Assinalamos que o caráter ecuménico e eclético do Rito Português, a ser trabalhado por comunidades em que outras religiões, que não a cristã, sejam dominantes, foi tomado em conta. Os diversos credos dos maçons regulares dispõem de referências semelhantes à de São Jorge, podendo substituir o significante da aclamação sem desvirtuar o seu sentido e significado.

Numa altura conturbada a nível mundial, São Jorge personifica a mensagem da Cavalaria Espiritual e dos seus princípios não só relativamente à Humanidade em geral, mas também a cada ser humano em particular.

O Cavaleiro está ao serviço da Humanidade pela graça de Deus, servindo o seu país e o seu povo mas também a própria humanidade.

A Maçonaria é uma das vertentes dessa Cavalaria Espiritual e a mensagem de busca e combate pela “Verdade” de São Jorge é algo que deve ser perpetuado pelas gerações futuras, pois um mundo sem Verdade é um mundo que definhará.

A missão da cavalaria espiritual é por isso uma missão de serviço ao povo, à pátria e a Deus.

No Rito Português, a cor das velas bem como nos aventais, são Verdes, na tonalidade mais próxima do verde da Bandeira Portuguesa.

Reúne os seguintes atributos:

  • é a cor da esperança, da liberdade e vitalidade;
  • está associada ao crescimento, à renovação e à plenitude;
  • é uma cor que harmoniza qualquer ambiente e traz boas energias; o verde traz equilíbrio ao corpo e ao espírito.

O Verde (da Bandeira Portuguesa) é o da Ordem de Avis (Ave ou Pomba) que representa o Espírito Santo.

É nas noites mais escuras que as estrelas brilham mais.

O Mundo está novamente a mudar.

As antigas alianças geoestratégicas estão a colapsar.

Hoje, mais do que nunca é necessário construir novas.

São Jorge é uma dessas Pontes !

JPD, V.’.G.’.M.’.

Nota sobre o R.’.E.’.A.’.A.’.

Em 4 de Julho de 6016, a Oriente de Sintra, três Respeitáveis Lojas  unem-se para constituir a nossa Grande Loja Unida de Portugal.

Entre elas, encontrava-se a R:.L:. Pátria, nº 2 que adotou como prática ritualística, o Rito Escocês Antigo e Aceite.

Importa pois, mesmo que de forma sucinta, descrever alguns aspetos históricos deste Rito, bem como a relevância do seu simbolismo.

Nos últimos três séculos, muito se tem escrito sobre o Rito Escocês Antigo e Aceite, tendo diversos autores seguido por vias alternativas em aspetos relacionados com as sua bases, origem e constituição.

As opiniões dividem-se nesta matéria, havendo porém algumas correntes fundamentais, que por terem os seus registos validados através de consulta a atas da época, é possível seguir:

Independentemente da presumível influência Templária que o nosso Rito possa ter recebido, não havendo também unanimidade em relação a este aspeto, sabe-se que o mesmo nasce em França e não na Escócia, recebendo apenas esta designação pela relação com os graus que lhe foram conferidos.

Com efeito, se nos centrarmos nos primeiros registos escritos de um Rito Escocês, concluímos que apenas surge em 1730, com a atribuição de um grau de “Mestre Escocês”. Este grau denominado de filosófico, serviria apenas de complemento aos graus simbólicos, ou seja, a chamada Maçonaria de altos graus.

Factualmente, pela veracidade dos documentos acima mencionados, sabe-se que no ano de 1745 é fundada em Bordéus a primeira Loja de Mestres Escoceses, de seu nome ‘’Elus Parfaits’’ fazendo parte da sua estrutura o I:. Etienne Morin, que anos mais tarde, após inúmeros serviços prestados, vem a ser nomeado Grande Inspetor. De acordo com os poderes que lhe foram conferidos, cria em 1753 a sua ‘’ Loja de Mestres Escoceses em Santo Domingo, atual Haiti, à data, uma das várias colónias do Império Francês.

Desde então, é possível encontrar inúmeros registos físicos, que relatam o aparecimento de novas Lojas nos diversos territórios de França, espalhando-se a partir deste ponto por todo o mundo ocidental.

O nascimento oficial do Rito Escocês, surge pela sua rápida aceitação na América colonial, onde em 1801, pela primeira vez, é formado através dos célebres Onze cavalheiros de Charleston, o Supremo Concelho do Rito Escocês nos Estados Unidos.

Ainda no decorrer do século XIX, após o dinamismo imposto ao Rito por Albert Pike, este ganha uma enorme popularidade, tornando-se numa verdadeira potência mundial.

Com base em registos da época, sabe-se que chega finalmente a Portugal em 1873 por via da Grande Loja de Dublin, que o introduz num sistema mais simplificado de apenas três graus, praticado de forma pioneira pela Loja Regeneração nº1.

A Maçonaria em geral e este nosso Rito em particular, ganham em Portugal um crescente interesse e adesão, pelo facto de facultar aos seus membros uma nova perspetiva de valores morais e sociais, assentes no simbolismo de uma Loja, com as suas Colunas de Sabedoria, Força e Beleza, enquanto complementos de qualquer obra humana, alicerçada nos deveres de solidariedade e compromisso dos seus membros.

No decorrer do último século, ao abrigo de inovações introduzidas e fundamentadas em argumentos de modernidade ou simplificação, foram retirados ao Rito Escocês Antigo e Aceite elementos e partes substanciais dos seus rituais, mantendo-se porém até aos dias de hoje, a nobre tradição francesa da sua origem.

No respeito por estes ancestrais manuais de ensinamentos, o R:.E:.A:.A:. mantém porém a peculiaridade do seu ritualismo, revelado pela métrica marcial das suas circulações, compenetração dos seus movimentos e rigor na execução das cerimónias, num interminável trabalho à Glória de Deus.

Continuando a usar como pontos cardeais a Sabedoria, a Força e a Beleza, fazemos por norma, um lento mas seguro progresso, procurando incansavelmente a Luz nas nossas Colunas.

O vermelho explícito deste nosso Rito, anuncia-nos que a sua força basilar é o sustento das suas Colunas, que servem simultaneamente de base aos nossos esforços, num claro resultado de uma paixão dominada e finalmente tornada em ferramenta útil.

Usamo-la para erguer a obra com os nossos Irmãos, talhando a pedra interior, numa construção, que bem sabemos, outros antes de nós começaram, e que jamais a veremos terminada.

Esta inevitabilidade é por todos encarada com naturalidade, pois sabemos que a mesma é parte fundamental deste caminho

Nesta obra, em que a crença no Divino é fundamental e comum a todos os Irmãos, permite o Rito, que diferentes designações possam ser evocadas, podendo inclusivé divergir na sua origem, mas acabando certamente por se encontrar no destino, de forma a que o projeto possa progredir à Glória do Uno.

Trabalhamos ainda hoje em função das nossas capacidades, ao nosso próprio ritmo, tentando imitar o Sol no seu Zénite, persistindo até que finalmente possamos com ele conseguir atingir o Nadir.

Quando a luz cessa dando lugar ao cintilar das estrelas, conseguimos por vezes ler nelas os seus desígnios e perceber finalmente alguns dos seus mistérios.

Chegada a hora, quando os ponteiros se juntam, reunimos em redor do plano traçado, dando-lhe a forma que permita a união das suas extremidades.

É então tempo de Orar e inspirar. Ouvir e ser inspirado.

E quando os malhetes ressoam, abrindo vias para o que não se vê, juramos guardar as nossas palavras e recolhemos em paz.

Regressados às trevas, agora armados de novas forças, podemos novamente combater o que a nossa moral não pode nem deve tolerar. Neste regresso à sociedade, deveremos ser as invisíveis Colunas que a sustentam, assumindo essa solene responsabilidade, se possível, com o estoicismo de um farol perante a fúria da maré.

Impõe-se que continuemos a Obra!

JF, M:.M:.