Categoria: Boletim N.º 2

Factos e Notícias

25 de Março

Dando seguimento aos projetos de intervenção social da G\L\U\P\, e em resultado da generosidade e sentido de solidariedade dos nossos II\ procedeu-se à angariação de fundos em ordem à aquisição e doação de meios de salvamento, nomeadamente, uma embarcação semirrígida, destinada a melhorar a eficácia assistencial, da prestimoso agrupamento de Bombeiros Voluntários do Beato.

Bombeiros Beato

25 de Abril

Como anteriormente vem sucedendo, realizou-se no dia 27 de abril, mais um ágape BRANCO aberto igualmente a profanos, num conhecido restaurante de Lisboa. O acontecimento, inspirado no sagrado valor da Liberdade alcançada com o 25 de Abril, foi largamente presenciado pelos nossos OO\ e Acompanhantes. Na oportunidade tivemos a honra de contar com a participação de eminentes oradores, que abordaram temáticas sobre Desigualdades.

25 Abril 6

6 de Maio

Ocorreu no dia 6 de maio, o levantamento de colunas de mais uma R:.L:. DA GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL a oriente de Coimbra e que adotou e TRABALHARÁ o R:.E:.A:.A:.. Realizou-se também uma ampla ação de Formação Maçónica, cujo programa foi largamente divulgado, dirigida a todos os OO:. da G:.L:.U:.P:.. Em complemento ocorreu no domingo, uma visita guiada ao Palace Hotel do Buçaco, Mosteiro Carmelita e respetiva Mata envolvente.

levantamento de colunas

9 de Julho

No dia 9 de julho, realizar-se-á o espetáculo, “Mil Vozes por um Livro”, no Convento do Beato, INICIATIVA EM PARCERIA ENTRE A GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL e a JUNTA DE FREGUESIA DO BEATO, levado a efeito pelo ARTISTA Fernando Pereira. O custo do ingresso será efetivado pela dádiva de um livro, efetivado por eventual espectador que deseje assistir.

Lord of the Voices III

7 e 8 de Setembro

Está programado a realização de um concerto, no Teatro Ibérico a 7 e 8 DE SETEMBRO, sob a direção musical do Maestro Hélder Bruno. ESTA SERÁ UMA INICIATIVA DA GRANDE LOJA UNIDA DE PORTUGAL QUE OFERECE À POPULAÇÃO DO BEATO UM CONCERTO DE MÚSICA INTIMISTA.

96914848_bde2de8abf_z

Ser livre e de bons costumes

Ser livre e de bons costumes, são dois dos valores mais importantes para os maçons, na medida em que se propõe um exercício de livre pensamento, de estudo sereno e sério sobre todos os fenómenos sociais e humanos.

A liberdade de aprender, a moral e os bons costumes são noções que importa salientar e que contribuem para um elevado sentido do bem coletivo e da vida em sociedade.

A liberdade também se conecta com o autoconhecimento, na medida em que é deste que nasce a virtude mais importante do ser humano, a sua capacidade de distinguir o bem do mal, de acordo com os valores que defenda, em prol da fraternidade entre os homens.

Ser livre é assim para todos nós, maçons, o resultado do desenvolvimento pessoal de cada um de nós, alicerçado na convivência fraterna de pessoas que comungam dos mesmos valores, em busca da sua liberdade individual e da convivência pacífica entre todos os seres humanos, independentemente dos seus credos, religiões ou filiações partidárias.

A noção dos bons costumes está presente em todos os aspectos da vida social e legal, seja no cumprimento das nossas responsabilidades enquanto cidadãos desta pátria que é a língua portuguesa, como imortalizou Fernando Pessoa, com a frase “A minha pátria é a língua portuguesa”, seja enquanto defensores de uma sociedade fraterna e que se delimita pelas suas normas e leis constitucionais às quais devemos estar sujeitos.

Os bons costumes são um traço genérico que caracterizam todos os maçons, sendo através deles que manifestam o seu comportamento e por isso mesmo deve ser um farol que nos guia o caminho nesta jornada que é a vida.

Numa reflexão pessoal e individual que faço, acredito no esforço e no mérito pessoal, acredito numa sociedade mais fraterna, responsável e sustentável e acima de tudo, acredito nos valores universais maçónicos que defendem a liberdade do ser humano e a fraternidade.

Como humano que sou, conheço as minhas fraquezas, mas acima de tudo sei do valor que posso acrescentar, servindo cada vez mais e melhor a sociedade a que pertenço, contribuindo para uma aprendizagem diária e um melhoramento contínuo enquanto homem e enquanto cidadão.

“Dentre todas as sociedades, nenhuma há, mais nobre e mais estável, que aquela em que os homens estejam unidos pelo amor.”

Cícero
AM, HF

Justiça e Verdade

Falar de justiça e de verdade obriga desde logo a procurar fixar o significado de cada um destes conceitos. Trata-se naturalmente de realidades com uma estreita relação que se espera que caminhem lado a lado, mas que se constata que nem sempre tal acontece. As teorizações à volta de ambos os conceitos são muito diversas e de complexidade variável.

Das várias definições de verdade encontradas, importa como primeira reflexão acerca deste conceito sublinhar que, a verdade será antes de mais, a conformidade com um facto ou realidade.

Contudo, tal afirmação não basta, pois devemos também ter presente que a verdade pode ou não estar em conformidade com um facto ou realidade, argumentando-se que ela é acima de tudo, uma interpretação mental da realidade transmitida pelos sentidos.

Podemos aperfeiçoar ainda mais esta ideia e acrescentar que, para que estejamos de facto perante a verdade, essa interpretação mental transmitida pelos sentidos, deverá ser confirmada por outras pessoas e por equações matemáticas e linguísticas que permitam construir um modelo de interpretação aplicável a casos semelhantes no futuro.

Para o que nos interessa analisar, podemos ainda considerar dois tipos principais de verdade – a verdade material e a verdade formal.

A primeira deverá ser entendida como a realidade em si, o que de facto acontece ou aconteceu. No caso de um processo judicial será o que existe ou existiu, independentemente de constar ou não nos autos.

A segunda é a que resulta da inferência a partir de postulados ou axiomas aceites como verdadeiros, na prática é a verdade que resulta do que está contido nos documentos que são apresentados. No caso de um processo judicial será o que consta nos autos, traduzindo-se no brocardo latino – “quod non est in actis non est in mundo” (o que não está nos autos não está no mundo).

Quanto à justiça, numa breve passagem pela Wikipédia, rapidamente percebemos que o conceito de justiça está presente em diversos campos do saber, nomeadamente, no estudo do direito, da filosofia, da ética, da moral e da religião. Ao longo da história, vários foram os estudiosos que se debruçaram sobre o seu significado.

Na antiga Grécia, merecem destaque a posição de três dos seus principais filósofos, Aristóteles, Platão e Sócrates.

Para Aristóteles, a justiça deveria ser entendida sobretudo como sendo “uma igualdade proporcional, defendendo o “tratamento igual entre os iguais e desigual entre os desiguais, na proporção da sua desigualdade”.

Para Platão, a justiça deveria ser vista como “sinónimo de harmonia social, sendo o justo aquele que se comporta de acordo com a lei .

Sócrates por sua vez, defende que “a justiça é virtude e sabedoria, é falar a verdade e devolver ao outro o que lhe pertence”, e que “a injustiça é maldade e ignorância”.

Um outro contributo relevante para esta temática foi-nos deixado por São Tomás de Aquino, que se afirmou sobretudo durante a Idade Média, defendendo a justiça como sendo “a vontade de dar a cada um o que é seu. Tomás de Aquino entende que “não há um código absoluto de uma justiça invariável, tendo em vista que a razão humana é variável” e que, “se somente a vontade de Deus é invariável, então a justiça somente pode estar em Deus.

Importa ainda fazer uma referência às duas grandes categorias que agrupam as principais teorias modernas sobre justiça. Numa primeira categoria, a ideia de justiça relaciona-se diretamente com a ideia de equidade. Numa segunda categoria, a ideia de justiça está mais ligada ao conceito de bem-estar. Cada uma delas comporta uma série de teorias diferentes que, tendo em conta as limitações impostas para a realização deste trabalho, entendo não ser imprescindível abordar.

Há, contudo, um autor, John Rawls, cuja teoria importa analisar, pela influência que teve em muitas das outras teorizações à volta do conceito de justiça como equidade e pela importância que, por esse motivo, a sua obra “A Theory of Justice”, publicada em 1971, acabou por ter.

Segundo J. Rawls (1971), os direitos individuais não poderão ser violados mesmo que em benefício da maioria, ou seja, a negação da liberdade a alguém não fica legitimada pelo facto de daí resultar um benefício para a generalidade das pessoas. O mesmo acontecerá na situação em que se equacione a imposição de sacrifícios a uma minoria para que daí resultem benefícios para a maioria. Assim, numa sociedade justa, as liberdades individuais e a igualdade entre todos os cidadãos terão necessariamente que estar garantidas.

A justiça é portanto a primeira virtude das instituições, tal como a verdade é a primeira virtude dos sistemas de pensamento, querendo com isto sublinhar que, uma qualquer instituição por muito bem estruturada e eficiente que seja, deverá ser reformada ou até mesmo extinta se não for justa e que uma teoria que não assente na verdade, terá necessariamente que ser revista ou abandonada.

Podemos então concluir que, a justiça deve basear-se na verdade e buscar a igualdade entre os cidadãos. Este poderá ser considerado o estado ideal de interação social, certamente um dos principais desígnios da humanidade.

Contudo, mesmo um espirito menos atento ao que se passa no mundo, rapidamente concluirá que em muitos lugares tal não passa de uma utopia. E não se torna necessário olhar para o terceiro mundo, pois no mundo dito civilizado não faltam exemplos que nos obrigam a concluir que, o que deveria ser entendido como virtude moral tendo como farol a equidade, se vai perdendo na bruma da chamada “pós-verdade”, rejeitando-se a verdade em benefício dos apelos emocionais e das crenças pessoais.

Será caso para dizer que, mesmo em muitos dos países ocidentais, onde a estátua de olhos vendados (que na antiga Roma traduzia a ideia de que todos os cidadãos são iguais perante a lei) continua a ser ostentada, devemos garantir que nunca lhe seja retirada a venda para que não se assuste com os “alternative facts” que por aí vão sendo fabricados e apresente a sua demissão…

AM, FP

O Número de Ouro

A história do número de ouro, desperta há muito tempo a curiosidade de muitos matemáticos. Também conhecido como a proporção áurea, a divina proporção, ou matematicamente pelo número 1,6180 (número Phi ϕ). A escolha para representar a proporção áurea com esta letra do alfabeto grego, terá talvez tido a ver com o arquiteto e matemático grego Phidias, que acredita-se ter provavelmente usado este conceito quando desenhou o Parthenon (templo dedicado à deusa Athena), no século 5 a.c.

Mas também podemos encontrar na antiguidade do Egipto, nas pirâmides de Gizé, que foram construídas tendo em conta a proporção áurea, no Papiro de Rhind (Egípcio 1650 a.C), um documento no qual constam problemas de um trabalho ainda mais antigo, que se refere a uma «razão sagrada» e que se crê ser o número de ouro, e também em muitas estátuas da antiguidade.

A proporção áurea não se limita a aparecer em obras de arte ou monumentos, não é difícil de encontrar exemplos na natureza, refletida nos nossos ossos, na ramificação de veias e nervos, na disposição das pétalas das flores, na formação de galáxias, na geometria dos cristais, nas teias das aranhas, e até na proporção entre abelhas (fêmeas x machos) de uma colmeia.

O número de ouro é um número irracional, misterioso e enigmático que nos surge numa infinidade de elementos da natureza na forma de uma razão, ele é o representante matemático da perfeição na natureza e foi o primeiro número irracional de que se teve consciência que o era.

Sabemos nos dias de hoje que um conjunto de fenômenos naturais podem ser expressos matematicamente, e que esta ideia se adapta inclusive a todas as ciências, como a física, a biologia, a economia e a medicina.

Durante anos o homem procurou a beleza perfeita, a proporção ideal, intrigando gerações de pensadores sobre este número. Não se sabe ao certo quem começou a estudar este número, mas o certo é de que muitos matemáticos tentaram descobrir qual seria esta relação, como Pitágoras, Euclides, Leonardo de Pisa (Fibonaci) mas também grandes pensadores fascinados com este intrigante número o utilizaram, como Platão, Leonardo da Vinci, Beethoven entre outros. No entanto e apesar de ser apenas um valor numérico, é reconhecido por muitos como o símbolo da harmonia.

Um exemplo, é o facto de que se desenharmos um retângulo cujos lados tenham uma razão entre si igual ao número de ouro este pode ser dividido num quadrado e noutro retângulo em que este tem também ele, a razão entre os dois lados igual ao número de ouro. Este processo pode ser repetido indefinidamente mantendo-se a razão constante, e a partir dessa proporção tudo era construído. A profundidade dividida pelo comprimento ou altura, tudo seguia uma proporção ideal de 1,618. Os Egípcios fizeram-no na construção das pirâmides, em que cada pedra era 1,618 maior do que a pedra em cima, e a de cima era por sua vez 1,618 maior que a outra em cima e assim por diante.

A secção de ouro terá sido usada também na construção da estrela pentagonal, sendo obtida através de diagonais do pentágono regular, que tem na relação entre o comprimento da sua diagonal e o comprimento do seu lado o número de ouro.

Quando Pitágoras descobriu que as proporções do pentagrama eram a proporção áurea, tornou este símbolo como a representação da Irmandade Pitagórica. Este era um dos motivos que levava Pitágoras a dizer que “tudo é número”, ou seja, que a natureza surge de padrões matemáticos.

No fim da idade média, por volta do século XIII, o matemático italiano Leonardo Fibonacci, estudava uma solução para o problema do crescimento da população de coelhos e acabou por descobrir a sequência matemática, conhecida como a série de Fibonacci, em que cada número é obtido pela soma dos dois números antecedentes e ao dividirmos cada termo da sucessão pelo número anterior os valores oscilam perto do número de ouro. Isso fica ainda mais relevante a cada nova divisão onde os valores dessas divisões vão convergindo cada vez mais do número 1,618, e onde a proporção de crescimento médio da série é 1,618.

Utilizando este sistema numérico construímos um retângulo com dois números interligados desta sequência, formando o chamado Retângulo de Ouro, e que é considerado o formato retangular mais belo e apropriado de todos. O Retângulo de Ouro quando é divido por quadrados proporcionais à Sequência de Fibonacci, ele alarga o seu conjunto consoante a sucessão de Fibonacci.

Ou seja, juntando dois quadrados unitários, teremos um retângulo duas vezes o primeiro, sendo que o comprimento do segundo é igual à soma dos lados dos quadrados anteriores. Voltamos a anexar outro quadrado em que o lado é o maior dos lados do retângulo anterior e teremos um terceiro retângulo. Continuamos a anexar quadrados com lados iguais ao maior dos comprimentos dos retângulos obtidos antes. A sequência dos lados dos próximos quadrados é a sequência de Fibonacci.

Construindo este quadrado e desenhando um arco, este padrão começa a construir formas, que são denominadas como a Espiral de Fibonacci. Esta simetria parece não ter muito significado, mas na verdade podemos observá-la em grande parte da natureza, assim como no nosso corpo, demonstradas em vários estudos de Leonardo da Vinci e no Homem Vitrúvio que mostrava as ideias de proporção e simetria aplicadas à conceção da beleza humana

O número de ouro é considerado como um símbolo da harmonia. Fibonacci deu uma grande contribuição à Geometria com a sua descoberta, a qual está relacionada com a solução do problema dos coelhos. Todos esses exemplos nos levam a perceber o porquê da grande importância que este número tem e o porquê do motivo que foi apelidado “de ouro”.

Pela sua história, é razoável supor que este número de ouro (1,618) tão fundamental na sequência de Fibonacci, possa ter sido descoberto e redescoberto diversas vezes, o que poderia explicar o facto de ter sido apelidado de tantos nomes: proporção áurea, número de ouro, número áureo, proporção dourada, razão áurea, razão de ouro, divina proporção, proporção em extrema razão, divisão de extrema razão, ou, simplesmente, Φ (phi).

AM, JPM

O Silêncio

Meus irmãos, nesta ocasião peço-vos respeitosamente que fiquem em silêncio e assim estarão na perfeita disposição de entender os legados de uma virtude sem par.

Para entender corretamente o que significa o silêncio para o Maçon, devemos manter a sua definição profana, indicando que é a privação voluntária da faculdade de falar. E na verdade, quase todos sabemos falar mas poucos sabem calar. Podemos dizer que o silêncio é uma virtude através da qual se corrigem muitos defeitos e se aprende a ser prudente e indulgente com as falhas que se observam.

A razão contemplativa do silêncio deve inspirar o aprendiz e o Maçom em geral a potenciar as suas possibilidades espirituais que se encontram sempre latentes, por outras palavras no silêncio encontra-se sempre a possibilidade de crescimento, quando nos afastamos das nossas influências exteriores, abrimos os canais da concentração, observamos, escutamos e contemplamos. Isto por si só é um processo que absorve uma grande força de vontade e demonstra que não é fácil estar em silêncio.

A primeira etapa de aprendizagem maçónica é designada pelo silêncio como meio hábil de criar uma atmosfera de trabalho adequada e uma ferramenta eficaz para o desenvolvimento intelectual e o cultivo da mente. É uma ferramenta hábil como indutora de calma interna necessária para neutralizar a ansiedade e a presa imposta pelas tentações do mundo profano.

Os irmãos aprendizes, dedicados ao desbaste da pedra bruta em silêncio, são símbolo vivo e operante de quem trabalha na construção da sua própria perfeição, de quem procura alcançar os mais altos princípios intelectuais, morais e sociais que modelam o nosso carácter plenamente, posto que esta atitude implica uma boa cota de força de vontade para conter a nossa necessidade natural de opinar e expressar os nossos pareceres. O silêncio nos dará a paciência necessária para a resolução de problemas e possibilitará escolher a palavra certa no momento em que estejamos habilitados para usar a palavra, com uma resposta adequada, inteligente, fraterna, livre de egoísmos e sem ofensas.

O silêncio dos aprendizes tem a dupla função de escutar a si próprio, pois os ruídos profanos dispersam-nos e apegam-nos ao superficial sem que possamos aprofundar os conhecimentos e como tal, se aprendermos a escutar, aprendemos a dar às nossas palavras o sentido profundo e correto que uma pessoa culta tem de ter. Tem ainda a função de escutar o outro, porque ao não participar nos debates centramo-nos e concentramo-nos na escuta reflexiva. Deste modo, as palavras dos nossos queridos irmãos não se perderão nas nossas cabeças, serão assimiladas, analisadas e incorporadas. Poderia dizer que enquanto os nossos irmãos falam, nós, os aprendizes participamos no diálogo por meio do nosso silêncio, mas não um silêncio por imposição, por ignorância ou por desinteresse, pelo contrário trata-se de um silêncio fértil que ajuda a desenvolver o nosso conhecimento, o nosso ser, a nossa consciência, e de certa maneira, também um silêncio ativo porque toma nota, pensa, dá fruto. Como vemos, o silêncio pode apresentar-se como passivo e ativo.

Para aprender a calar, temos de ter consciência das nossas fragilidades, o que por vezes é difícil encontrar o nosso silêncio interior. Dessa dificuldade deriva sem dúvida a maioria dos vícios do ser humano, pois a fala é por consequência a expressão audível dos nossos pensamentos, sentimentos e pareceres. O silêncio praticado pelos aprendizes é elevado à categoria de virtude, pois graças a ele é possível aprender a ser prudente, diligente, moderado e discreto.

Este tema faz-me retroceder no tempo, mais concretamente ao momento da minha iniciação. É bom recordar que o silêncio tem um papel principal no rito, desde que somos vendados e levados para a câmara de reflexões, é-nos revelado que só através da contemplação se pode aceder aos primeiros ensinamentos. A lei iniciática do silêncio começa quando ainda profanos, na câmara de reflexões, onde permanecemos sós, rodeados de símbolos, frases e palavras, e nos é estimulado a penetrar no nosso interior. De igual forma, quando prestamos juramento, adquirimos a obrigação de calar, especialmente quando nos é indicado que não revelaremos os segredos da ordem nem as palavras ensinadas ao mundo profano. Aí o silêncio simboliza a discrição e a disciplina do Maçom, assim como a sua lealdade para consigo próprio e seus irmãos. Para ser mais eloquente transcrevo um velho ditado que define bem esse ponto “os lábios da sabedoria estão mudos longe dos ouvidos da compreensão”, por isso, o bom Maçom prefere que lhe cortem a garganta que quebrar o silêncio.

O alcance da nossa palavra, produto do nosso pensamento, é a chave para a construção do nosso templo interior, através do polimento da pedra bruta. È melhor estar calado se não souber como e quando falar. É melhor estar calado, até que aprenda a importância de utilizar a palavra de uma forma consciente. É melhor estar calado enquanto não tenha a certeza de poder dominar a paixão como detonante do pensamento, e assim não avassalar, ferir, magoar o outro e seguramente magoar a mim mesmo. É melhor estar calado quando não esteja preparado para aceitar a minha missão. É melhor estar calado quando começo a caminhar por caminhos desconhecidos.

AM, JG

O Palácio Pátria / Freguesia do Beato (continuação)

Na continuação da descrição do local da freguesia do Beato, iniciado no Boletim Inaugural, com o objetivo de facilitar uma melhor identificação do território onde nos implantamos, seja permitido mais algumas referências do património local:

Pátios e vilas-Como se referiu foi a partir de meados do seculo XIX que se foram moldando os espaços ribeirinhos, adaptando-os a novas funções, derivadas do processo de industrialização e consequentemente, da concentração de milhares de novos residentes. Esses residentes ocupavam pátios e outros espaços obsoletos do edificado existente, nomeadamente velhos palácios (como por exemplo o Pátio do Colégio, no antigo palácio do Marquês de Abrantes do séc. XVII) e logradouros de prédios de habitação, com a construção de pequenas células habitacionais. Em função das más condições e dos protestos que então se geraram, em consequência da falta de resposta estatal, surge a VILA, construída com melhor planeamento que o PÁTIO.

As últimas quatro décadas marcam, contudo, o final desse processo de industrialização, com a desactivação e o abandono de diversas unidades.

Com efeito grandes unidades produtivas com força motriz a carvão na primeira metade do seculo XX (com as suas grandes chaminés de tijolo), vão coexistir com grandes entrepostos comerciais, (Abel Pereira da Fonseca, José Domingues Barreiro) a par da dinâmica actividade portuária. Nos finais da década de quarenta Portugal está em plena era industrial, com amplos complexos fabris agora movidos a energia elétrica, implantando-se alguns no velho núcleo ribeirinho. Assinalando-se a partir de 1960 a abertura da economia portuguesa ao exterior, esta dinâmica produtiva irá manter-se até ao ano de 1973, configurando está época, um período de significativo crescimento económico. Compreende-se assim como o Beato (e Marvila) configurando um máximo de concentração urbana, apresentem uma marca urbanística permanente representada pelo Pátio e pela Vila, a par de alguma arquitectura informal (“bairro de lata”). Esta população residente caracteriza-se por fortes relações de vizinhança, estabelecimento de redes de sociabilidade típicas da comunidade e da solidariedade mecânica do grupo primário, combatendo o isolamento urbano e com forte investimento nos processos afetivos, função igualmente não apenas dos laços de parentesco, mas do forte enraizamento e d longo tempo de ocupação do espaço, conferindo um caracter único à vivencia humana que ali se verifica. O coração destes Pátios e Vilas é o pátio interior, espécie de grande terreiro comunitário, que funcionava (e funciona ainda?) como extensão pública da exiguidade do espaço da habitação privada. De resto isso ainda hoje é observável, por exemplo, nos chamados “bairros típicos” de Lisboa.

-No final da década de oitenta o quadro acima descrito, altera-se com a terciarização económica, o encerramento de muitas unidades e uma emigração de parte das novas gerações de residentes. Acrescente-se que a continuidade precedente de actividade agrícola que se regista desde tempos antigos, ainda continuou paralelamente à industrialização, abastecendo a cidade de Lisboa, com produtos hortícolas. Paralelamente algumas ações de realojamento na zona, aconteceram no decorrer das décadas de oitenta e noventa dando origem aos bairros do Condado, do Amador, da Flamenga, dos Alfinetes, do Marquês de Abrantes e das Salgadas

-Será talvez importante referir que em resultado da fusão de três modestos clubes (Marvilense, Fósforos e Chelas) surgiu o CLUBE ORIENTAL de LISBOA (Marvila), com um papel muito importante na construção de identidades e que nesta Zona, arrastava como prosélitos entusiasmados, grande parte dos habitantes da zona oriental, acompanhando-o na sua deslocação.

Hoje, existe intenção de reabilitar tais espaços já que estes, são entendidos como revalorizáveis pelas vivências e memórias que representam, podendo serem compagináveis com a necessidade de obtenção de zonas de arrendamento acessível, nomeadamente, para jovens, dando assim inicio a uma renovação do processo identitário., apesar das antigas gerações ainda hoje não terem perdido a antiga identidade agrícola e industrial.

-Decorria o ano de 1854, quando se fundou a Fábrica der Fiação de Xabregas (constituindo-se em Fábrica de Tecidos de Algodões em 1858) cujos proprietários estrangeiros, imbuídos de atitudes filantrópicas, decidiram mandar edificar entre 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias em Xabregas.  Em 1888 consonância, nasceriam mais duas vilas operarias de maiores dimensões- a vila Flamiano destinada ao alojamento de Mestres e Contramestres e a Vila Dias para operários. Na totalidade o bairro operário da Fábrica de Tecido de Algodões compunha-se de 106 habitações. Outras Vilas e Pátios, entretanto, foram sendo construídos entre as quais: O Pátio do Black; a Vila Maria Luísa que em 1933, já contava com equipamento publico (escola, mercado, balneário) e infraestruturas de abastecimento de água e de saneamento básico); Pátio Marialva; Pátio do Colégio; Pátio da Matinha; Pátio do Beirão, Vila Santos Lima; Vila Emília.

Vila Flamiano, constitui uma das vilas operárias mais conhecidas de lisboa, constituindo um paradigma dos processos de alojamento dos trabalhadores no contexto da industrialização da zona na segunda metade do século XIX. Costuma ser associada à empresa fundadora (Companhia do Fabrico de Algodão de Xabregas). No entanto a sua construção (1887/1888) poderá ser atribuída à acção de fomento da Fábrica da Samaritana.  Representou um projecto inovador para a época em função dos cuidados de saneamento, então inusitados nesse tempo. Parav além disso o projecto do bairro, situados em terrenos da fábrica, de autoria do Engenheiro António Teixeira Júdice, previa um amplo espaço de logradouro publico.

Vila Dias- implementada nos finais do seculo XIX (1888), para alojar os operários e suas famílias que laboravam no caminho de ferro recentemente inaugurado, bem como nas diversas industrias que operavam no Beato/Xabregas, sobretudo nas grandes fábricas de fiação entre as quais a Fábrica de Fiação de Xabregas.

Do património edificado erudito, com interesse histórico e arquitectónico, ao qual já aludimos acima, será de realçar:

Convento das Grilas foi um antigo convento de freiras da Ordem dos Agostinhos Descalços, que se situava, em frente ao Recolhimento do Grilo e da Igreja paroquial de São Bartolomeu. Fundado por Dª Luísa de Gusmão em 21 de Abril de 1664, foi extinto após a morte da última freira em Março de 1885, após o qual, no decorrer de 1889, abrigou as instalações da Padaria da Manutenção militar, que ocupou toda a cerca e procedendo à demolição da totalidade do complexo religioso.

-Já anteriormente, a partir da década de 1850, foi um dos conventos a ter a sua cerca amputada, pela construção do primeiro troço do caminho de ferro, construído em Portugal (inaugurado em junho de 1856), nomeadamente, o espaço da cerca situado a norte dessa via. O inventário e outras descrições do conteúdo revelam a existência de bons materiais, nomeadamente mármores, bem como obras de interesse, em termos artísticos e decorativos, entre os quais, quadros a óleo com representações religiosas, azulejaria, etc. Tais elementos foram na sua maioria dispersos para diversas instituições que foram requerendo a entrega das mesmas.

Convento do Beato (Complemento informativo do Boletim inaugural) – Já se referiu que o antigo Convento de São Bento de Xabregas ou Enxobregas, teve origem no seculo XV quando a Rainha D Isabel obteve autorização para construir na ermida de São Bento, um Hospício para a Congregação dos Frades Azuis ou Loios.

No seculo XVI, Frei António da Conceição, inicia a construção do Convento a que a devoção popular por esta figura, implicou a designação de Convento do Beato. Com brevidade toda a freguesia do local de sua implantação, passou a designar-se, FREGUESIA do BEATO.  A Freguesia do Beato propriamente dita, inicialmente denominada por São Bartolomeu do Beato, foi desanexada da freguesia de Santa Maria dos Olivais em 1756.

Alguns nomes ilustres e factos notáveis encontram-se ligados à história do comento:

Frei António da Conceição teria beneficiado da amizade mutua que existia com o rei D. Sebastião e uma das consequências, foram as obras de ampliação do templo. Diversos autores referem que quando das vésperas da partida para a batalha de Alcácer Quibir, D. Sebastião ter-se-ia aconselhado com Frei António o qual lhe garantiu a vitória final. Por sua vez, o Duque de Alba recebeu a bênção de Frei António. Quando se sentiu moribundo, logo após o conhecimento do desastre de Alcácer Quibir, o Duque dirigiu-se ao convento onde viria a falecer. Também o Duque de Bragança D. Teodósio, pai de D. João I V, tinha por hábito ouvir missa e a palavra de frei António, na igreja conventual.

 -Quanto ao edificado, refiram-se os materiais predominantemente de mármores brancos que conferem ao edifício uma robustez, que permitiu resistir ao terramoto de 1755. Possuía uma notável livraria (cerca de 10 mil volumes), sendo igualmente notável a bela escadaria conventual de mármores branco e rosa, com balaustrada guarnecida de bela estatuária. Depois do sismo os restos mortais da Infanta Dª Catarina (1391-1438) filha do rei D. Duarte, vieram do Convento de Santo Elói (Largo dos Loios), que teria ficado arruinado naquele grande sismo e depositados, na capela mor do convento do Beato.

 No final do seculo XVIII, o convento abrigou o HOSPITAL REAL MILITAR e, em 1834, depois de ter sofrido grande incendio, é comprado pelo negociante João de Brito.

-A unidade fabril ali instalada foi a primeira a ter a utilização da Máquina a Vapor em Portugal e em 1849 a Rainha Da Maria I I autoriza a utilização da Marca NACIONAL nos produtos da empresa.

Em 1999 o Grupo Cerealis vocacionado para a transformação de cereais imprime uma nova dinâmica na utilização   para eventos culturais.

O Padre Francisco de Santa Maria (na obra O Céu Aberto na Terra), reporta que a capela-mor continha quatro sepulturas da família dos Condes de Linhares, tendo sido mandada erguer em 1622, por Dª Joana de Noronha, com intenção de nela igualmente ficar sepultada quando morresse. Mais tarde essas sepulturas foram profanadas tendo os ossos sido depositados numa cripta. Ainda hoje, se podem observar os respectivos epitáfios, inscritos nas paredes da capela-mor. Diz-se que um dos grandes amores ou uma das musas de Luís Vaz de Camões, Dª Violante de Andrade, Condessa de Linhares, ali jaz sepultada. Julga-se que durante uma estadia do seu marido, D. Francisco de Noronha, em França, Dª Violante terá mantido com o poeta uma relação afectiva.

 Dª Joana de Andrade, filha de Violante também apontada como um dos amores de Camões, jaz igualmente sepultada no Convento do Beato.

Convento da Madre Deus – Classificado como Monumento Nacional, foi ocupado pela Ordem dos Franciscanos Descalços. Em 1983, integrou a décima sétima Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura. Abriga actualmente nas suas instalações, o Museu Nacional do Azulejo, onde se podem observar, os melhores exemplos da talha barroca e a azulejaria. Para além de uma vastíssima colecção de azulejos, permite o conhecimento das diversas fases do processo produtivo, bem como a sucessão de gostos decorativos e estilísticos, que se sucederam.

Edificado em 1509 por iniciativa da rainha Dº Leonor, esposa do rei D: João II, as obras, contudo, irão prolongar-se até 1550, data da conclusão da igreja, no tempo de D. João III. Todavia sucessivas obras ao longo dos reinados de D. Pedro II, D. João V e D. José, compreendendo um longo período que vais desde os finais do seculo XVII, até meados do seculo XVIII, irão valorizar ainda mais o monumento.

Convento de São Francisco de Xabregas ou Convento de Santa Maria de Jesus, onde funciona actualmente, na antiga igreja, o teatro Ibérico e a Mediateca de Formação Profissional, foi convento da Ordem dos Franciscanos, no lugar onde terá existido um antigo Paço Real (ou residência campestre) onde D. Afonso III e os monarcas que se seguiram, passavam largas temporadas. No seculo XIV era um lugar tranquilo, idílico, relativamente isolado e abrigado do vento norte. Na parte fronteira, existia um extenso areal, formando uma bela praia do rio Tejo. Em 1373, no reinado de D. Fernando, os castelhanos estabelecendo o cerco a Lisboa, incendiaram grande numero de propriedades incluindo o Paço Real. Em 1455 o rei Afonso V, doou o arruinado palácio a Dª Guiomar de Castro, a qual iniciou as obras que levariam à edificação do Convento de Santa Maria de Jesus. Concluindo-se as obras em 1460, foi entregue à Ordem Franciscana, passando a ser conhecido como Convento de São Francisco de Xabregas. Numa descrição de 1551, pode-se ler que” …o mosteiro esta fora dos muros …um terço de légua…é de frades menores de observância e há nele cinquenta frades. Tem algumas capelas, uma de invocação de reis, sepulturas de muitas pessoas nobres, na qual os padres tem algumas obrigações de missar…”.

O arquitecto João Nunes Tinoco, assina o projecto das obras na igreja e no claustro.

– A destruição que e verificou após o terramoto de 1755, levou à ampliação do convento, ostentando uma fachada monumental, com um pórtico encimado pelo brasão de armas do rei D. José I e que ainda hoje se conserva. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, foi o edifício ocupado pelo regimento de Infantaria nº 1. Em 1838, o convento foi arrendado à Companhia de Fiação e Tecidos de Algodão Lisbonense, até que em 1844, um grande incendio destruiu o edifício escapando somente a igreja. Procedendo-se à reconstrução, instalou-se a Fábrica de Tabacos Lisbonense, mais tarde, Companhia Portuguesa de Tabacos, ocupando as instalações ao longo de boa parte do século XX. Em 1980, o espaço da antiga igreja foi destinado à Companhia Teatro Ibérico e em 1991, nas dependências conventuais contiguas, o Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP).

Teatro Ibérico (Centro Cultural de Pesquisa e Arte), cuja porta de ingresso se implanta na fachada da antiga igreja barroca conventual, foi criado por José Blanco Gil, beneficiando de instalações cedidas pelo IEFP- Este teatro tem características únicas já que aproveita a magnifica acústica e da arquitectura religiosa.

Viaduto ferroviário ou Ponte de Ferro de Xabregas, é uma infraestrutura da linha do Norte, cuja construção foi projectada por Jonh Sutherland.  A ponte é sustentada duas secções; uma de arcaria de pedra e a outra em vigas metálicas que foram substituídas em 1954. A sua implementação teve consequências importantes na alteração da lógica de ocupação subsequente do espaço paisagístico e edificado.

-Palácio de D. Gastão de Sousa Coutinho ou dos Senhores das Ilhas Desertas, situava-se no local, onde no seculo XX passou a funcionar a escola primária nº 20. Em 1640 a zona do Beato/Xabregas era um dos locais mais activos na conspiração contra a ocupação Filipina. Um dos fidalgos conspiradores mais empenhados (em sintonia com o seu vizinho D. Vasco de Menezes do Palácio dos Melos ou dos marqueses de Olhão), era D. Gastão de Sousa Coutinho, cujo palácio se situava junto à calçada, que ainda hoje ostenta o seu nome (Calçada de Dom Gastão). Este fidalgo, em 1644 teria mandado edificar junto ao palácio, uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Rosário da Restauração, da qual não restam hoje, quaisquer vestígios. Esta Ermida, cujo total desaparecimento, constitui hoje verdadeiro enigma, foi instituída por D. Gastão Coutinho, em função de cumprimento de um voto a Nossa Senhora do Rosário, pelo sucesso da Restauração da Independência Nacional. A imagem foi trazida da fortaleza de Cascais (a fortaleza foi ocupada por forças comandadas por aquele fidalgo) e após diversas peripécias (cujo relato não exclui factos miraculosos), foi depositada na Ermida do Grilo, no dia de São João Baptista, no ano de 1643. No ano de 1652, D. Gastão e a mulher, Dª Isabel Ferraz, dispuseram em seus testamentos, a vontade de nela serem sepultados, bem á vista da imagem da Santa, desejo que foi cumprido por um sobrinho, que para o efeito mandou lavrar dois magníficos túmulos de mármore. Infelizmente após a demolição da Capela tais túmulos, bem como a imagem desapareceram enigmaticamente, não havendo notícia do seu paradeiro-

Existia igualmente um cais privativo – designado, cais dos Senhores das Ilhas Desertas-situado na rua da Manutenção, de que restam alguns vestígios.  Nesta zoa existiram diversos cais de acostagem, uns públicos outros privados, servindo as diversas casas, dispostas ao longo do rio.

-Palácio dos Marqueses de Olhão ou dos Melos ou dos Melos da Cunha, classificado como Monumento Nacional desde 1987, data do seculo XVI, tendo sido seu primeiro proprietário, o grande navegador e primeiro Vice-Rei da Índia, D. Tristão da Cunha, fidalgo da confiança de D. Manuel e de D. João III. Mais tarde ainda no tempo de D. João III, o palácio entrou na propriedade de D. Jorge de Melo. Beneficiando de grandes remodelações, sobre o núcleo da casa quinhentista, na primeira metade do seculo XVIII, encetadas por, D. Pedro da Cunha, 2º conde de Castro Marim (e primeiro marquês de Olhão, e que resistindo ao terramoto de 1755, mantém a configuração que hoje ainda se regista. Apresenta portal brasonado cm as armas dos Cunhas. Dispões no seu interior de salas de grande aparato, bem como de património azulejar dos seculos XVII e XVIII, salão de entrada com tectos apainelados, bem como quadros a óleo de alguns proprietários, frescos e pinturas que decoram diversas salas.

Foi neste palácio, que em 1640 pertencia a D. Vasco de Meneses, que um grupo de fidalgos conspirou para levar a efeito a RESTAURAÇÃO da Independência Nacional, terminando com o domínio Filipino.

No interior do palácio são visíveis, paredes grossas e maciças e corredores abobadados típicos da arquitectura seiscentista, a par de uma sobreposição de outros estilos.

Actualmente disponibiliza serviços de apoio à realização de diversos eventos, com o mérito de não descaracterizar uma residência nobre que se mantém na mesma família desde há 500 anos.

Palácio dos Marqueses de Niza, edifício de fachada de feição neoclássica, foi construído em terrenos pertencentes ao paço real de Enxobregas do séc. XVI. Fundado em 1543, por D. Francisco da Câmara, segundo conde da Vidigueira, passou por diversos proprietários, entre os quais os descendentes de Vasco da Gama.

Doado por Dª Luísa de Gusmão á condessa de Unhão, integra-se por via do matrimónio nas Casas de Niza e Vidigueira., regressou à posse dos Marqueses de Nisa em 1672. O edifício ficou bastante desfigurado após 1755 e igualmente pelas diversas intervenções de que foi objecto ao longo do tempo.

O Edifício, (ostentando na fachada principal um portal nobre e na fachada lateral o brasão do rei D. Luís), foi objecto de grandes alterações na segunda metade do seculo XVIII. No ano de 1867 foi adquirido pelo Estado, por iniciativa de Dª Maria I, tendo sido destinado para casa de recolhimento e de correcção de menores, passando a designar-se Asilo Dº Maria Pia.

Em 1926, foi vendido à Misericórdia de Lisboa e desde 1941, constitui uma secção da Casa Pia de Lisboa.

Um dos ilustres proprietários foi D. Vasco Luís da Gama (1612-1676), 5º Conde da Vidigueira, Senhor da Vila de Frades e Trevões, tendo sido um dos grandes fidalgos do reino a tomar partido pelo Duque de Bragança (futuro D. João IV), na Restauração de Portugal. Exerceu os altos cargos de Almirante do Mar das Índias e embaixador em França de 1642 a 1649, influenciando o apoio a Portugal por parte do ministro francês, cardeal Mazarino. Deputado da Junta dos Três Estados, membro do Conselho de Estado e da Guerra, desempenhou, em 1668, o papel de negociador plenipotenciário no tratado de paz com a Espanha. Igualmente exerceu as funções de Vedor da Fazenda e Estribeiro Mor da Rainha dª Francisca.

Nos finais do seculo XIX, até meados do seculo XX, estabeleceu-se defronte do palácio, um mercado a céu aberto de venda de produtos alimentares, com a curiosidade de no tempo da Segunda Guerra Mundial, ter-se chegado a vender carne de baleia, num entreposto especial destinado para o efeito.

-Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca constitui paradigma notável das grandes casas comerciais do início do seculo XX, especialmente marcante na zona do Beato/Poço do Bispo. A sua origem deve-se à actividade empresarial de Abel Pereira da Fonseca, grande agricultor, proprietário de vastas vinhas na zona do Bombarral, Cadaval, Torres Novas e Alenquer. Fundador da Companhia Agrícola da Sanguinhal, no Bombarral, com o objectivo de implementar melhorias na gestão. Em conformidade criou uma estrutura comercial com a fundação da casa Abel Pereira da Fonseca & Cª, com armazéns na rua da Manutenção do Estado em Xabregas. (19067/1907), passando depois para a rua do Amorim em 1910.

Em 1917 procedeu-se, sob risco do arquitecto Norte Júnior, à construção um novo e notável edifício de armazém, na Praça David Leandro da Silva a Marvila, com integração na fachada de elementos inspirados na Arte Nova, e que se mantem até à actualidade. No seu interior para além da zona de armazenagem de pipas e um conjunto de cento e setenta enormes cubas (com capacidade para mais de 120 milhões de litros), integrou outras áreas destinadas à administração, escritórios e laboratório.

Como curiosidade, fica a informação de que num texto da Companhia Agrícola do Sanguinhal, pode ler-se «… era comum Fernando Pessoa, enquanto se encontrava a trabalhar levantar-se, pegar no chapéu, ajeitar os óculos e ir até ao “Abel” … as idas ao “Abel” eram, nada mais, nada menos que uma ida ao depósito mais próximo da Casa Abel Pereira da Fonseca para tomar um cálice de aguardente…» (testemunho de um colega de trabalho do poeta, Luís Pedro Moitinho de Almeida).

Em 1993, a empresa cessou a sua actividade e em 1998, a Câmara Municipal de Lisboa, ocupou as instalações, para actividades de animação cultural no contexto da “Expi-98” (música ao vivo, exposições de arte, mostra gastronómica, passagem e modelos, etc.). Nos tempos actuais ali, funciona um minimercado e uma “tasquinha”.

O património edificado mostra-se deveras interessante, afirmando no logotipo da fachada a sua afirmação identitária com o Rio Tejo, representando a tradicional fragata em que se transportava o vinho por via fluvial. Entrado em gradual estado de degradação, foi o edifício recuperado no âmbito do projecto “Caminhos do Oriente, da autoria de Sarmento de Matos, integrado na “Expo-98”.

-A finalizar esta breve incursão sobre a zona onde nos implantamos, ao deve silenciar-se a alusão à vida de sociabilidade intensa dos pátios e vilas, os bailes, as festas populares, (Flamiano, Dias e muitas mais) , os lavadouros público, os fontanários tristemente secos, as actividades desportivas, lúdicas e de recreio desenvolvidas nomeadamente à volta das tascas, as bandas de música e outras instituições de apoio social e educativas, etc. e que ainda hoje povoam persistentemente a memória dos residentes.

Outro património relevante existente na zona, refere-se a diversos palacetes e vestígio de quintas agrícolas, circundando o território da freguesia, podendo servir de exemplo o chalé da Quinta das Pintoras e a Casa de S. Vicente (actualmente sede de uma IPSS):

-Quinta das Pintoras, é um palacete de características urbanas do seculo XIX, integrado numa quinta, na Estrada de Marvila/ Azinhaga da Bruxa, num local onde ainda se observa um casario de pequenas dimensões e quinta agrícolas e de recreio. Interessantes os painéis de azulejos monocromos, figurativos, do seculo XIX., no primeiro andar.

-A Casa de São Vicente dos finais do seculo XVII, integrando uma antiga quinta (das Veigas) mantem desde 1940, uma estrutura de apoio social, estabelecida pela acção da Condessa de Mafra (Dª Maria Antónia de Mello Breyner). Encontra-se hoje algo deteriorada.

Saudações,
Fernando Casqueira
R:.I:. G:.P:.B:. / V:.M:.

Bussaco: Palácio e Sacromonte

Na sequência das antecedentes deslocações (visitas lúdico/recreativas de convívio e estudo) já efectuadas a diversos locais, propõe-se agora a abordagem á região do Buçaco, deveras interessante, não apenas pela sua riqueza em termos de património histórico, artístico, mas igualmente pelo universo semântico em termos de significação simbólica esotérica.

-É uma proposta que surge no contexto dos eventos programados pelo R:.G:.M:. da GLUP, nomeadamente, o levantamento de colunas de uma R:.L:. à qual todos temos o dever de participar, bem como um acto formativo previsto para dias 07, de Maio, cuja programação foi atempadamente divulgado.

-O Paço Real do Buçaco ou Palace Hotel (como se queira designar) constitui um vasto conjunto patrimonial (arquitectónico, botânico e paisagístico), único no país, provocando impacto fortemente impressivo no eventual visitante. O edifício, concebido nos finais do século XIX pelo arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini (igualmente autor do projecto da Quinta da Regaleira), contou com a colaboração de diversos notáveis artistas portugueses, em diversas áreas e fases da construção (Norte Júnior, José Alexandre Soares, Jorge Colaço, António Ramalho, Nicola Bigaglia, João Vaz, António Gonçalves, entre diversos outros, de que daremos nota final. Último cenário oficial da monarquia em 27 de Setembro de 1910. O edificado foi projectado desde 1888 finalizando a sua construção em 1907, data em que foi concedida a sua exploração por um espaço de 19 anos a Paul Bergamin, actualmente pertença do grupo Alexandre Almeida

-O edificado dentro de um espírito revivalista, apresenta um estilo neogótico-manuelino, alguns designam como um exemplo do “romantismo-castelar”. Para além dos belos jardins, das extraordinárias fachadas, dos magníficos pórticos, janelões e escadarias, contém uma rica decoração no seu interior, como sejam os belíssimos painéis de azulejos, frescos e quadros alusivos á gloriosa época dos Descobrimentos portugueses, bem como elementos estruturais evocativos de importantes monumentos dessa época, como a Torre de Belém, o claustro dos Jerónimos ou o Convento de Cristo, reportando um estilo gótico de mistura com episódios românticos, em contraste com a severa austeridade monacal.

Os Azulejos de caris historicista e nacionalista da autoria de Jorge Colaço (dez painéis de inspiração camoniana) nos portais nas galerias das alas norte, nascente e no extremo sul. Notáveis igualmente no Hall de entrada e no vão da escadaria, com predominância de azuis e brancos, com cercaduras de belo efeito cromático, mostrando cenas da guerra Peninsular, da Batalha do Buçaco. Outros temas como as cenas da partida para a Índia, a Tomada de Ceuta, Tomada de Goa, contam-se igualmente entre o importante acervo.

O mobiliário apresenta um conjunto notável de peças portuguesas, chinesas e indo-portuguesas, incluindo preciosas tapeçarias, sendo igualmente de destacar a Galeria Real, o tecto mourisco, o precioso soalho de madeiras exóticas os corredores ricamente decorados com mobiliário, pinturas e

Todos os quartos, apesar do toque actual moderno, permitem respirar um ambiente clássico, incluindo moveis do sec. XVIII até Art Nouveau. O actual hotel possui 64 quartos sendo de destacar a suite da Rainha D.ª Amália e a suite real do Rei D. Carlos.

-Último palácio (de caça) dos Reis de Portugal, transformado posteriormente em hotel, considerado um dos mais belos do mundo, contem no seu interior um enorme acervo artístico e concretiza um dos sonhos mais fantasiosos de um rei visionário (D. Fernando II de Saxe-Coburgo – Ghotta) ele próprio artista emérito, inspirado nas tradições românticas dos seus primos alemães, mandando edificar “o mais genuíno palácio real de conto de fadas num bosque encantado”.

Relativamente ao património religioso, são notáveis os Frontais de Altar, produzidos no sgundo e terceiro quartéis do seculo XVII, aplicados na igreja, construções adjacentes, capelinhas da mata e provenientes de Talavera de la Reina integrando o conjunto dos mais notáveis painéis de altar existentes em Portugal. Apesar das vicissitudes deste património ao longo dos tempos, especialmente com a Batalha do Buçaco e extinção das ordens religiosas, chegou até aos nossos dias mais de uma dezena de frontais, para além de subsistirem restos nas cercanias do Buçaco.

Ainda na segunda metade do seculo XIX o país ainda não se tinha recomposto dos traumas diversos que afligiram o país: A saída da Família Real para o Brasil, as Invasões Napoleónicas, a independência do Brasil, as lutas entre Liberais e absolutistas, grassando um espírito nostálgico e decadentista. Com o Fontismo o país tenta ressuscitar modernizando-se e industrializando-se, apostando nas obras públicas, ao mesmo tempo que tenta desenvolver o comércio e a agricultura. Apesar do balde de água fria, da ameaça de uma banca rota posterior, entretanto o país consegue um certo progresso. Por seu lado Silva Porto ao assumir a cadeira de paisagem da Academia Nacional de Belas Artes irá provocar uma autêntica revolução cultural no país: o Naturalismo porventura influenciado pela Escola de Barbizon (França) com a qual Silva Porto teve contacto, mas mantendo um ecletismo pictórico recebido mais tarde do sul de Itália. O Naturalismo não somente um olhar idílico e fantasioso da vida campestre. É muito mais um olhar realista (e uma denúncia), para o ritmo lento e atrasado do processo de desenvolvimento em Portugal, mostrando que era nas aldeias de Portugal que residia a realidade mais indesmentível.

Muitos dos artistas que trabalharam no Palácio, podem ser referenciados como naturalistas, ou pelo menos estariam bem atentos a essa corrente. onde se incluía o próprio rei D. Carlos de Bragança. Com Silva Porto e seus discípulos, alguns notáveis amantes do “ar-livrismo”, recusavam a ditadura da clausura do atelier e eventualmente, encontravam-se igualmente na tabacaria Mónaco ao Rossio, ou, e sobretudo no restaurante-cervejaria Leão de Douro.

A tabacaria Mónaco (nome derivado da visita do príncipe do Mónaco), fundada por José César Vieira da Cruz, constituiu um exemplar quase único de tabacaria do final do séc. XIX, sendo um dos raros estabelecimentos que mantem até à actualidade a mesma atividade comercial, mantendo igualmente sem alterações o mobiliário e a notabilíssima decoração interior. De notar ao visitante, o hibridismo decorativo resultante de um ecletismo intimista do espaço, integrando opções estéticas de diversos artistas desde Rosendo Carvalheira (autor do projecto, mobiliário e arquitectura de interiores), Pedro dos Reis (escultura), Rafael Bordalo Pinheiro (pintura de azulejo) António Ramalho (pintura do tecto) e alguns outros.

A tabacaria era frequentada por inúmeros intelectuais e artistas como Eça de Queirós, João de Deus, Trindade Coelho, Marcelino Mesquita, Gomes Leal, Henrique Lopes de Mendonça, Brito Camacho, João de Menezes, Fialho de Almeida

Em volta de Silva Porto, formou-se, como dissemos, na cervejaria Leão de Ouro, um primeiro grupo designado “O Grupo do Leão”, responsável pelo enorme sucesso da pintura naturalista. Realizaram oito exposições com enorme afluência de público, entre os quais o próprio rei D. Fernando II que de resto adquiriu algumas obras. Esta corrente constitui de facto uma verdadeira ruptura com um panorama artístico até então vigente, mostrando pequenas cenas do quotidiano, repletas de luz e com inteira liberdade de representação, dando particular atenção à vida do campo. O grupo representava-se como moderno, realista e vanguardista, integrando, algumas personagens importantes do nosso meio artístico como Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929); José Malhoa (1855-1933), Carlos Reis (1863- António Ramalho, António Augusto da Costa Mota

Numa breve resenha biográfica, recordemos alguns dos principais intervenientes:

-Emidio Navarro (1844-1905), Advogado, jornalista e político, foi membro do partido progressista histórico e ministro das obras públicas (1886.1889), adversário das politicas de Fontes Pereira de Melo.  A sua acção foi determinante, para o desenvolvimento do ensino da agricultura (fundando diversas escolas industriais e agrícolas), bem como para os transportes ferroviários. Foi notória a influencia que exerceu, para a implementação do Palácio Real de Caça no Buçaco.

-D. Carlos I. Em Agosto de 1904, o rei fez uma visita ao Buçaco que não visitava havia mais de 20 anos, permanecendo três dias. Regressou de novo no final do mês acompanhado da Rainha DªAmélia, realizando-se nessa ocasião diversos festas, chegando o rei a demonstrar os seus dotes de barítono. Possuía, notáveis aptidões artísticas, nomeadamente, como aguarelista, assinando muitas vezes como “Carlos Fernando”, é geralmente conectado com a segunda geração de naturalistas portugueses, conhecendo mesmo pessoalmente alguns dos maios notáveis artistas esta corrente.

O Naturalismo, teve uma prolongada existência em Portugal, desde finais do seculo XIX e passando até, a segunda metade do século XX. Essa situação deveu-se a vários factores nomeadamente a grande dependência da Inglaterra, incapaz de reverter o quadro de atraso e de decadência que enquadrou o país durante quase todo o seculo XIX. Os intelectuais portugueses esforçaram-se sem grande sucesso para elevar a moral de uma nação que se sentia frágil e inferiorizada. Estas afirmações artísticas encontraram-se em oposição e mesmo em ruptura com outros movimentos artísticos e de pensamento, como foram por exemplo, as manifestações do modernismo dos finais do séc. XIX e entrado em Portugal logo no início do século XX (havendo de prolongar-se adentro do Estado novo).

-Luigi Manini, (1848-1936) arquitecto, pintor e cenógrafo italiano, trabalhou no Scala de Milão e a partir de 1879, logo após a sua chegada a Lisboa, no Teatro Nacional de S Carlos, D. Maria II(cenários). Em 1894 procede à decoração da sala do teatro São Luís e em 1895 intervém no Museu Militar (decoração). Entre as obras mais emblemáticas, conta-se o Palácio da Quinta da Regaleira, em Sintra e o Palácio Real do Buçaco (a convite de Emídio Navarro, em 1888), bem como os cenários florestais envolventes. Recorde-se também, que muitos outros artistas (escultores, canteiros, entalhadores) trabalharão num e noutro local. Sintra constituía o ambiente ideal para o desenvolvimento da obra de Manini, nomeadamente os elementos inspiradores do manuelinos do Paço Real e o revivalismo romântico da Pena

Antes de vir para Portugal, onde viveu até 1913, já tinha deixado em Itália, obra assinalável (restauro dos frescos da Igreja de São Bernardino, Igreja de Cremasco, decoração da Villa Stramezzi, entre outras.

Corria o ano de 1878 quando, acidentalmente, um portal do Mosteiro dos Jerónimos ruiu, significando simbolicamente a decadência do neomanuelino. Estava-se numa época em que o sentimento nacionalista estava adormecido e o movimento romântico dava sinais de decadência. Em contraponto, o neomanuelino significava para alguns o renascimento da arquitectura portuguesa enquanto para outros tal estilo merecia o desprezo e a demolição. Mas em 1880 tiveram lugar as comemorações camonianas e em1898, celebrou-se a viagem de Vasco da Gama. Estes acontecimentos tiveram grande impacto evidenciando a grandeza dos Descobrimentos Portugueses em que o estilo manuelino é a principal representação plástica.

O seu ideário nacionalista, revelado já em obras anteriores, ganha expressão na adopção dos elementos do neomanuelino.

No palácio Foz, pinta o trecho da escadaria e em 1900, intervém na decoração do pavilhão português na Exposição Universal de Paris, onde pinta um telão com cenas alegóricas dos Descobrimentos evocando as viagens de Pedro Alvares Cabral, Corte Real e Fernão Magalhães. Para além das obras mencionadas fez intervenções nas Vilas Sasseti, Relógio, Challet Mayer, Chalet Biester (casado jardineiro), fachada do antigo hotel Tivoli, participou no projecto do actual Palácio dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais, decoração do teatro Garcia de Resende, em Évora, teatro do Funchal. teatro Sá de Miranda, em Viana Castelo.

-Norte Júnior, Manuel Joaquim, (1878-1962), arquiteto e maçon. Concluiu o curso de arquitectura em Lisboa, estagiou em Paris, fez visitas de estudo em Espanha, França e Bélgica. Considerado por alguns analistas, como um dos melhores arquitectos do país (foi galardoado cinco vezes com o prémio Valmor), regista, uma notável participação nas Avenidas Novas em Lisboa e em outras ruas de lisboa (Casa Malhoa, edifícios na Av. da Republica , Av. da Liberdade, Praça Duque de Saldanha, Av. Fontes Pereira de Melo, Av. Almirante Reis, Edifício Abel Pereira da Fonseca, Café Nicola, Crédito Predial Português, Teatro Variedades, Cine Royal, Villa Sousa no Lumiar, Casino de Sintra ,Palacete Belmaço (Faro), Palace Hotel da Curia, palacete da Sociedade Amor da Pátria-Horta, etc. No Buçaco assina o projecto da Casa dos Brasões.

Espirito eclético, inscreveu o seu nome na arquitectura contemporânea de Lisboa, ombreando com a notável geração de jovens arquitectos modernos (Ventura Terra, Adães Bermudes, Ernesto Korrodi, Cristino da Silva, Pardal Monteiro, Raul Lino, Cassiano Branco, e outros.

Tal ecletismo (que a arquitetura portuguesa revela no início do seculo XX), igualmente se encontra patente na intervenção no Hospital de Santana (Parede), efectuada, conjuntamente com outros, entre os quais, Rosendo Carvalheira (Abadia-Palácio Foz). A localidade da Parede constituía, de resto, ponto de convergência de habitações de pessoas das suas relações, como o arquitecto  Nicolla Biglalia e até ilustres republicanos e maçons, como Francisco Grandella, João de Arriaga e Manuel de Azevedo Gomes.

-Nicola Biglalia, (1841-1908), prestigiado Arquitecto, aguarelista e modelador, italiano, radicado em Portugal desde 1888.Professor na escola industrial de Leiria, onde lecionou modelação ornamental.

Artista de concepção clássica, premiado com o prémio Valmor, teve importante intervenção em Portugal nos finais do seculo XIX e inicio do XX, como na casa da Ínsua, actual hotel de Carme. São de mencionar outros trabalhos como, no Buçaco (Casa dos Cedros), Viseu (projecto do Asilo da Viscondessa de S. Caetano), Silves (casa do Visconde de Lagoa), Leiria (Convento da Portela),Leça da Palmeira ( Casa Museu da Quinta de Santiago),Setubal (Teatro Dª Amélia), Parede (Casa da Condessa de Edla e Casa da família Azevedo Gomes), Lisboa (Palácio Lima Mayer, Palácio Lambertini, Palácio Vale Flor, Palacete Leitão,).N o Buçaco assina a mencionada Casa dos Cedros.

-José Alexandre Soares autor de alguma intervenção no Palácio Hotel do Buçaco, riscando alguns pormenores arquitetónicos. Foi professor da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e interveio nalguns espaços de Lisboa nomeadamente no quiosque do Parque Silva Porto em Benfica.

-Carlos António Reis (1863- 1940) Pintor notável sobretudo dos meios aristocráticos e da realeza, mas igualmente representando cenas da vida quotidiana do povo português nomeadamente nos seus aspectos típicos, bodas e festas. Foi bolseiro em Paris, frequentando a respectiva escola e os ateliers dos mestres mais considerados. Professor da Escola de Belas Artes de Lisboa e colaborador em diversas revistas. Foi fundador do Grupo “Ar livre. Foi Director do Museu Nacional de Belas Artes e mais tarde do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Foi um pintor considerado o mágico do branco para comunicar as transparências da luz em obras de alto índice de cor e luminosidade.

Das suas inúmeras obras destacamos os painéis da sala de baile do palácio do Bussaco, a Sala do Senado e um retrato de D. Carlos depositado no Palácio de Vila Viçosa.

-António Ramalho (1859-1910), Pintor, discípulo de Tomás da Anunciação e Silva Porto. Em 1882, faz parte dos artistas naturalistas do Grupo do Leão e que adoptaram o trabalho ao ar livre. Desenvolve uma gramática formal de sabor revivalista embora não tenha ficado imune aos trabalhos da Art Nouveau. Colaborou no Jornal humorístico “António Maria” e trabalhou com João Vaz na obra do Buçaco, nomeadamente na decoração da escadaria, nos frescos da sala de jantar e na abóbada. Interveio também no teatro Garcia de Resende em Évora e no Palácio Sotto Mayor em Figueira da Foz,. Foi ainda autor dos vitrais do Hospital de Santana na Parede e no Palácio da Bolsa no Porto. Era presença costumeira na tabacaria Mónaco, tendo intervenção na obra do tecto do estabelecimento.

-João Vaz (1859-1931), pintor paisagista, especialmente focado em temas de marinha, pelos quais é costumeiramente designado como “marinhista”. Foi igualmente influenciado pelo impacto da fotografia, reivindicando também a libertação do atelier. Assim, integrou a fundação do Grupo do Leão, proclamando uma nova estética para a pintura no final do sec XIX, afirmando a imperatividade da Luz, como dimensão da sua própria pintura. Colaborou com António Ramalho em diversas obras especialmente na obra do Buçaco onde pintou os frescos da sala de jantar ilustrando passagens dos Lusíadas. Fez intervenções em diversas salas do Palácio de Belém, Sala da Restauração do Museu Militar de Lisboa, entre diversas outras.

Realizou obra assinalável nos Passos Perdidos da Assembleia da Republica, Teatros Rainha Dª Amélia e Garcia de Resende

-António Augusto da Cosa Mota (1852-1930) nasce em Coimbra onde na Associação dos Artistas começa a mostrar as suas aptidões, passando depois para a Escola Livre das Artes do Desenho onde terá como professor o Mestre António Augusto Gonçalves. Mais tarde, em Lisboa, terá como professores, Silva Porto, Tomás da Fonseca, Simões de Almeida, Sousa Viterbo. Como escultor integra-se na transição do romantismo para o naturalismo e mas tarde para o modernismo, sendo por isso difícil encontrar referencias estilísticas seguras para a sua produção. Num contexto em que o naturalismo quebrava a tradição romântica, o modernismo impõe-se como uma nova corrente original no seu tempo. Não obstante e denotando as dificuldades da escultura em adoptar novas correntes e cortar com a tradição clássica, o artista opta por uma estética revivalista. Foi galardoado com diversos prémios ainda como aluno de Belas Artes.

Foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes entre 1912 e 1915 e de novo em 1917. Deixou uma notabilíssima obra pública como restauro do coro alto dos Jerónimos; autor de diversos  bustos entre os quais, Miguel Bombarda, D. Carlos, João de Deus, José Malhoa, José Augusto Aguiar, António José de Almeida. Realizou os monumentos da Maria da Fonte e Afonso de Albuquerque, bem como, os túmulos de Luís de Camões e Vasco da Gama, mausoléu de Magalhães Lima no cemitério dos Prazeres. No Palácio Hotel do Buçaco irá colaborar com o amigo e mestre de Coimbra António Augusto Gonçalves, na obra “O Trovador”, bem como no grupo escultórico da Quinta da Regaleira.

-António Augusto Gonçalves, Professor de Escultura na Escola Livre das Artes do desenho tendo tipo como aluno António Augusto da Costa Motta, com o qual trabalharia no “Trovador” no Palácio Hotel do Buçaco e no grupo escultórico da Regaleira em Sintra. Com eles trabalharia igualmente o escultor João Machado.

-Jorge Colaço (1868-1942) desenhador, destacou-se na caricatura, na pintura e especialmente no azulejo, demostrando uma inigualável capacidade inovadora sobretudo ao nível das técnicas. Foi Director e Proprietário de revistas como O Thalassa, colaborador da Revista Branco e Negro. Era primo da actriz Amélia Rey Collaço Da sua vastíssima obra tanto em Portugal como no estrangeiro (Brasil, América Latina, Suíça) destacamos A estação de s. Bento, o Pavilhão dos Desportos (actual Carlos Lopes), Palácio da Bemposta, Palácio dos Condes de Óbidos e naturalmente o Palácio Hotel do Buçaco.

Toda a envolvência espacial do edifício com belíssimos, jardins complementam e acrescentam a beleza do local. referente á belíssima mata, de cuja gestão eram responsáveis os monges do antigo convento de Santa Cruz do Buçaco. Havia até, sancionada por bula papal (1643) a ameaça de excomunhão para quem destruísse árvores, bem como a obrigação em cada ano de se plantarem novas árvores, em substituição as que eventualmente tivessem sido cortadas. Com efeito , gravadas na pedra da portaria (Porta de Coimbra), duas bulas, uma de Gregório XV (1622), interditando o espaço conventual a mulheres e outra, de Urbano VIII (1643), interditando o corte de árvores.

Na Mata Nacional do Buçaco, um dos mais importantes arboretos europeus, em que avulta o “cedro do Buçaco”, poder-se-ão apreciar os Miradouros românticos, passos da Via Sacra e Cruz Alta, diversas ermidas e capelas, lagos do Vale dos Fetos, cascata da Fonte Fria).

Buçaco (cujo nome poderá derivar de Boscum Sacr un que daria “Sublaco”, nome de um lugar de penitencia em Roma, ao tempo de S. Bento), representa simbolicamente, um Sacromonte ou montanha sagrada, cuja concepção subsiste em muitos santuários do nosso país. É um conceito italiano, que remonta ao seculo XV, época em que Jerusalém se encontrava na posse dos turcos otomanos. A noção evoca, uma forma de representação da cidade santa, que se revive, recorrendo a um trajecto serpentiforme (iniciático-ritualista), no qual, se sucedem capelas devocionais, aludindo aos passos da prisão e paixão de Cristo.

A partir de Itália difundiu-se rapidamente por toda a Europa, possibilitando ao viandante uma rica experiencia espiritual salvífica (com a mesma intensidade de uma presença real na Palestina), revivendo os últimos momentos da vida do Salvador. Em Portugal, país de antiquíssimas religiões, em que esta forma de participação numa experiencia hierogâmica, não era estranha, facilmente a religião oficial encontrou terreno fértil. Com efeito alguns aspectos da noção de sacromonte já se encontravam em antigas tradições cultuais, donde no inconsciente colectivo, constituindo hoje uma marca identitária da espiritualidade do povo português.

Em 1644, na sequencia da Contra-reforma, por acção do Reitor de Coimbra, Manuel de Saldanha surgiu a Via Crucis, concretizando-se através da colocação de cruzes de madeira com legendas, permitindo analogia com a tipologia dos calvários medievais. Cinquenta anos depois (1594) o Bispo-Conde de Coimbra D. João de Melo mandou colocar pinturas dos Passos da Paixão, dentro de pequenas ermidas de planta central (Ermidas de Devoção), impondo a sua pedra de armas na frontaria da cada capela dedicada a S. José. Os analistas referem que este Bispo queria que a sua acção não se resumisse a um percurso messiânico, querendo ir mais longe, na representação de uma nova Jerusalém no deserto Carmelita. Assim, faz coincidir numa dimensão mais reduzida, a exacta distância das medidas, “reais”,  “históricas”, entre cada passo da Paixão, descritas nos textos canónicos e transpostas para o local, resultando, dadas as restrições espaciais, na sinuosidade do trajecto.

Mas a emulação a Jerusalém vais ainda mais longe, dado que este personagem incorporou elementos não descritos nas escrituras como o Cedron e outros como a porta de Siloé, Porta Judiciária, o Pretório, e o Calvário. No Pretório encontram-se os 28 degraus que Cristo subiu para o palácio de Pilatos e a varanda do Ecce Homo. No Calvário os corpos sextavados e paralelepipédicos representam o sepulcro de Cristo.

No Séc. XVIII, D. António Vasconcelos e Sousa patrocinou a criação de figuras de vulto de que resta apena uma na Ermida de S. José. Em 1887, dada a degradação do local Rafael Bordalo Pinheiro foi encarregado pelo governo de cria doze grupos escultóricos para os doze Passos, mas dos quais apenas foram realizados nove, mas que não foram colocados nos locais devidos. Mais tarde os Passos beneficiaram com a intervenção do escultor Carlos Mota (sobrinho), policromada a partir do Passo do Despojamento das Vestes.

Existem também diversas Ermidas de Penitencia de invocação das diversas Nossas Senhoras (Assumpção, Expectação, Conceição), Stª Teresa, Santo Elias, S. Miguel, S- José, S- João Baptista, etc., destinavam-se a habitação dos monges Carmelitas, que desejassem viver algum tempo fora da comunidade.

Aqui chegados, poderíamos colocar a questão das razões julgadas pertinentes, para propor um passeio num ambiente florestal, talvez algo fisicamente fatigante. Sem dúvida de que razões estéticas, a tranquilidade contemplativa do local, a sua dimensão esotérica -simbólica, ou o contacto revigorante com a natureza, serão considerações bastantes. Mas mais importante que tudo isso, o que se queria relevar, seria a possibilidade de aumento da consciência em “si” (em cada um dos visitantes). de uma experiencia espiritual, cósmica e que tem a ver com uma concepção do sagrado, que ultrapassa a narratividade dos textos religiosos oficiais. As experiencias espirituais não são apenas possíveis num contexto ritual. Tais experiencias podem ser produzidas noutros contextos, noutros ambientes apropriadamente estimulantes e daí a resposta á questão acima colocada.

Para muitos, urge reinventar uma espiritualidade e uma experiencia religiosa apropriada para o seculo XXI e, é bem verdade que o Papa Francisco e muitos outros têm procurado fazê-lo. O Deus do homem ingénuo, descrito como um ser que nos salva, que nos protege e que nos premeia e de cujos castigos temos medo, permitiu aos psicanalistas (e outros), descrevê-lo como uma sublimação do “pai” que tem uma relação com um “filho”, que lhe deve inquestionável obediência. Respeita-se tal perspectiva (se isso for equilibrante para as pessoas), até porque nos parece possível complementar, com um pensamento espiritual mais amplo e profundo, de resto, pressentido há já longo tempo, desde a filosofia clássica, medieval, Francisco de Assis, Spinoza, William James e muitos outros. De facto, seria importante que o homem religioso, possuísse crescente sentimento extasiante, face á intrigante harmonia da lei natural, desta grandiosidade harmónica, que esta envolvência permite evocar. Aqui, começa a surgir um fio condutor, uma matriz espiritual, cósmica, indistintamente comum a dezenas dos santuários (muitos deles locais sagrados pré-cristãos) que Portugal regista: Buçaco, Tomar (mata dos sete montes), serra de Sintra/Regaleira/ Bom Jesus (Braga), Srª dos Remédios (Lamego), Nª Sra. das Preces/ Oliveira do Hospital ou Nª Sª da Peneda (Gerês), para apenas citar alguns

Então, Deus é a origem de tudo o que existe perante os nossos sentidos; uma substancia eterna com atributos infinitos; é a natureza e as suas manifestações mais evidentes, são todas as criaturas vivas. E tudo isso impregna a nossa concepção de Cosmo no qual nos angustiamos na premente interrogação, do que é a vida, a existência, qual nosso papel, qual o nosso princípio e qual o nosso destino. Quando actuamos em concordância com a natureza de Deus, produzimos felicidade e produzimos uma espécie de salvação e um sentimento de Liberdade. Não apenas, aquela espécie de liberdade atinente ao livre arbítrio, mas uma liberdade mais radical, uma redução drástica da dependência em relação aos objectos, face aos quais, vivemos aprisionados. Quando deixamos prevalecer comportamentos egóticos, quando não conseguimos ser amáveis, quando não nos disponibilizamos solidariamente, negamos a oportunidade de atingir a paz interior e o sentimento da plenitude. Assim, não há que temer Deus, pois que a única coisa a temer, é o nosso próprio comportamento.

Daí a importância de se utilizarem instrumentos intelectuais como o conhecimento e a reflexão profunda e que poderão ser exponenciados na contemplação e introspeção daqueles complexos ambientais estimulantes, plenos de harmonia, tranquilidade, beleza e força telúrica.

Um incomensurável abraço amigo e solidário
Fernando Casqueira
R:.I:. G:.P:.B:. / V:.M:.

Ser Português: Reflexão

Vaticina-se a necessidade imperiosa (ou a possibilidade) de se alcançarem novas “Índias” situadas num algures de uma intemporalidade e de um espaço apenas imaginado, presente afinal, nos sonhos de todos nós.

Não recusando a dimensão pragmática da ciência e da técnica, com um pé na redutora historicidade das coisas do quotidiano, a relevância do onírico possibilita melhor o encontro com a intrínseca espiritualidade da missão do “ser português”. Já antes de um Fernando Pessoa, de uma Dalila Pereira da Costa ou de um Agostinho da Silva (e muitos outros depois deles) se afirmava (adivinhava?) a missão incita no devir da nossa colectividade nacional. Dirão alguns que se trata apenas de mitologia, esquecendo-se que o mito ou a sua crença, constituem afinal um dos mais poderosos motores para a acção. Por isso, mais que perceber a oceanografia, dominamos os oceanos, exorcizando medos (nossos ou de velhos do Restelo) e torneando obstáculos que a “estranha” flexibilidade que nos caracteriza sempre permitiu. Que o diga a inaudita e multifacetada diáspora portuguesa iniciada com os descobrimentos e extensível à actualidade.

Num certo sentido (maçónico por exemplo), alguns propõem (com razão, diga-se), que o nosso trajecto histórico contem analogias com um caminho iniciático que venceremos com a ajuda de entidades psicopômpicas como sejam os nossos antepassados heróis, sábios filósofos, pensadores, incluindo o Professor Agostinho da Silva.

-A visão manifestada pelo GLUP ao adoptar o Rito Português e ao implicar uma forma diferente de ser maçon, pretende levar à consciência a decisiva importância de um horizonte espiritual sempre presente na nossa Mito-história.

Daí a importância que o GLUP atribui à informação multivariada, ao estudo transdisciplinar e á reflexão crítica sempre em processo, constantemente presentes no espírito e no método daquele Professor. Mas atenção, isso exige sacrifícios, nunca se alcança o êxito pleno sem previamente se experimentar a dor. Portanto é inegável a presença, no processo iniciático, de uma pedagogia em ordem a um aumento da consciência e clarividência. A nós cabe-nos certamente fornecer as ferramentas mais adequadas ao desempenho das tarefas, levando “a bom porto” a conclusão da obra a que nos obrigamos.

Este “ser português”, afinal o nosso desiderato e o nosso objecto, pode ser dedutível da mito-análise, sobre os momentos (“moimentos/monumentos”) da nossa história. Proponho então um olhar sobre uma narrativa fundacional que envolve um dos nossos pais fundadores desde ainda antes de Afonso Henriques.

Grande TAF

Fernando Casqueira
R:.I:. G:.P:.B:. / V:.M:.

Liberdade Sempre

“Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres”.

Esta é para mim uma das mais belas definições de Liberdade. E talvez uma das mais inspiradas frases do famoso escritor e filósofo iluminista Voltaire, também ele maçom.

Independentemente das razões políticas, dos interesses económicos ou até mesmo corporativos, que possam ter estado também, de alguma forma, na origem do “25 de Abril”, podemos, sem qualquer sombra de dúvida, afirmar que foi a causa da Liberdade, o grande motor e principal motivo do movimento. Foi ela o denominador comum que, nesse dia histórico, uniu todos os portugueses e trouxe o país inteiro para a rua. A causa da Liberdade, ou talvez, melhor dizendo, da ausência de Liberdade, algo que era então verdadeiramente terrível e nos corroía a todos por dentro, como homens, como povo e como Nação. Faltava muita coisa nesse tempo, mas faltava sobretudo a Liberdade.

A Liberdade da escolha, do amor, da tolerância, da fraternidade e do respeito pelo outro. A mesma Liberdade que hoje nos permite reunir, decidir, eleger, participar, dizer afinal aquilo que quisermos, de quem muito bem entendermos. E isto, que parece hoje tão simples, tão natural, tão óbvio, é algo afinal absolutamente extraordinário.

É muito difícil explicar este sentimento, esta emoção, este apego à Liberdade, a alguém que nasceu um ano depois de mim. É impossível transmitir a pessoas que em 74 tinham menos de 15 ou 16 anos de idade, o que era viver diariamente na desconfiança do amigo ou do vizinho, que podia ser “bufo”; no medo de ler, escrever ou dizer algo que nos levasse à polícia; no terror de chegar aos 18 ou 20 anos e poder acabar morto ou mutilado, como muitos, numa guerra inglória, então condenada pelo mundo inteiro.

Tentar explicar isto a quem nunca o vivenciou ou que era então demasiado pequeno para entender, é um pouco como querer viver a maçonaria, apenas pelos livros, sem conhecer a iniciação e o verdadeiro trabalho em egrégora.

Pensando bem, mais do que “25 de Abril sempre”, faz sentido gritar “Liberdade sempre”. A data, importante por tudo o que representa historicamente, por toda a transformação que produziu, não passa afinal de uma referência simbólica. Mas a Liberdade, essa é o seu verdadeiro conteúdo. É o alfa e o ómega da revolução.

Os grandes valores de Liberdade, de tolerância e de fraternidade, fazem desde sempre parte do código genético da nossa democracia, estarão sempre impregnados no ar que a nossa Pátria respira. Enquanto homens livres e de bons costumes, cumpre-nos a todos nós amá-los, preservá-los, defendê-los e sermos os seus eternos guardiões.

Seremos sempre, enquanto maçons, guardiões do Templo do Amor e da Liberdade.

Lisboa, 25 de Abril de 6017
Francisco, V:. M:.