EXTREMÓFILOS

Estes microrganismos vivem e multiplicam-se em ambientes muito radioactivos, ácidos, alcalinos (de elevado PH), quentes, frios ou salinos, sujeitos a altas pressões, sem oxigénio ou contaminados com metais tóxicos.

Deste grupo faz parte uma bactéria “portuguesa” com o nome pouco expressivo de NL19, recém-descoberta na antiga mina de urânio da Quinta do Bispo, em Viseu. Vive como peixe na água, no seio de lamas com elevadas concentrações de metais radioactivos e uma quase ausência de nutrientes.

Também muitos destes microrganismos vivem dentro do corpo humano e, por incrível que pareça, cada um de nós transporta dez vezes mais extremófilos do que células e cem vezes mais genes estranhos do que os seus próprios genes.

Não é de admirar pois que, feitas as contas, se conclua, como o fez o investigador Adriano Henriques, coordenador da Divisão de Biologia do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, que ‘os seres vivos dominantes na Terra, em número e diversidade, foram, são e serão as bactérias’.

É aqui que quero focar-me: será que a consciência, atributo exclusivo aos humanos, que se saiba, é condição para nos considerarmos superiores aos outros organismos da Terra? Porque se analisarmos as coisas com isenção, será realista a importância que nos atribuímos enquanto espécie quando, acidental ou fortuitamente, formos alvo de algum acidente de percurso que nos permita sobreviver como o fazem as bactérias?

Lembremo-nos do destino que tiveram os grandes répteis, espécie aparentemente dominante no nosso planeta até há cerca de 50 ou 60 milhões de anos quando, um asteroide caído na península do Iucatão, provocou a sua extinção.

Quando estive nesta região do globo senti, calculo, a mesma reverência do peregrino que vai a Fátima embora, no meu caso, sem o paradigma religioso, pois o desaparecimento dos grandes sáurios permitiu aos mamíferos evoluírem ao ponto de hoje poder partilhar esta prancha convosco.

Ciclicamente, há uma espécie que aparenta ser mais bem-sucedida para vingar que as outras, mas se as coisas ‘dão para o torto’ e há uma extinção em massa, a vida microbiana, que já existia mesmo antes de nós fazermos parte da sua ‘cadeia alimentar’, irá encontrar seguramente um novo hospedeiro.

Com as informações que dispomos, ficámos também a saber que os esporos das bactérias resistem a tudo. Uma colónia gerada por uma única bactéria, um organismo unicelular, pode ter 10 mil milhões de células.

Os esporos são uma forma de repouso em que o metabolismo bacteriano está inactivo, uma estratégia que lhes permite sobreviver a períodos durante os quais as condições ambientais não permitem crescimento. As sementes das plantas são um exemplo bem conhecido.

E como todos sabemos, mesmo não sendo jardineiros, a razão para isso é não haver água, pois neste caso a água que existe dentro das células é substituída por minerais. Daí que, depois de as colocarmos na terra, a primeira operação a fazer é regá-las para que acordem…

Conclui-se então que o esporo é como uma pedra, um mineral que não tem actividade metabólica. E logo que está em contacto com ela, dá-se o milagre: a vida surge!

Perante isto, resta-nos aceitar a nossa presença na Terra como sendo uma das formas de vida que aqui se manifestaram e, provavelmente, não a mais importante, como muitos arrogam.

Neste ponto convém lembrar que, na hora da nossa morte, não sendo nós cremados, as bactérias que nos vão consumir até ao osso não entram de forma sub-reptícia no nosso caixão; nem já lá estavam tranquilamente à nossa espera, a pedido do cangalheiro…elas consomem-nos porque deixámos de lhes dar comida por via da nossa existência funcional enquanto seres vivos.

E quando a nossa máquina pára de os alimentar, comem a máquina!

Como disse Lavoisier, “na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

E ao acreditarmos na sua frase imaginamos hoje, mais de trezentos anos depois de ter sido morto na guilhotina, aos 50 anos, que foi transformado numa ração ‘gourmet’ de alto teor enciclopédico, alimentando os microrganismos que nos habitam em duas tranches, cabeça e tronco, uma espécie de entrada e prato principal, o que fez com que, seguramente, a geração de extremófilos que se seguiu à sua morte, fosse de natureza mais cientifica por via da assimilação dos seus neurónios…

Especulações à parte, pergunto: para onde vão de seguida os nossos comensais depois de nos terem comido a carne e lambido o esqueleto? Será que depois de morrermos, lhes proporcionamos a versão bacteriana da “Ultima Ceia”?

A pergunta chave deste raciocínio é parecida e talvez tão incómoda como outra que vem sido feita há muitos muitos anos: “O que é que havia no Universo antes do Big Bang?”

É que não nos comendo eles os ossos, e partindo do principio que nada mais há no caixão para lhes servir de alimento, para onde é que eles vão de seguida? Canibalizam-se até ao último? E este último? Morre de fome?

Talvez adormeçam numa letargia mineral, ‘esporificados’, à espera da oportunidade de saltarem, microbioticamente falando, para o interior de outro ser vivo que lhes garanta o ressurgimento activo – não confundir com renascimento, pois não estavam mortos – pela janela da humidade do ar que respiramos, ou mesmo por contaminação benigna, simbiótica, através da ingestão de uma alface Bio nascida do estrume rico em azoto e fósforo…

Seja como for, convém interiorizar o facto de sermos nós os hospedeiros dos verdadeiros ‘senhores da Terra’, e não o contrario; e que as inúmeras mortes por nós infligidas aos nossos irmãos de espécie ao longo de toda a história da humanidade, mais não são que suprimentos contínuos, e talvez a pedido, destes companheiros de viagem que não querem esperar muito tempo para se banquetearem.

Soubemos recentemente da descoberta de fósseis na Gronelândia datados de 3,7 mil milhões de anos, 220 milhões de anos mais velhos que os mais antigos vestígios de vida na Terra conhecidos até hoje.

O que é fascinante é que as estruturas e a química destes fósseis, os estromatólitos, deixam pensar numa atividade microbiana 800 milhões depois do nosso planeta nascer, anunciando-nos que já havia nessa “origem biológica”, um sinal “de uma emergência rápida da vida na Terra, trazendo-nos novas perspectivas sobre os ciclos químicos e as interações rocha-água-micróbios num planeta jovem”, segundo cientistas da Universidade Nacional Australiana.

Na evolução biológica, indivíduos competem pelos recursos do meio ambiente, e também competem por oportunidades de reprodução.

Ao reproduzirem-se com sucesso, passam adiante os genes que lhes deram vantagens no ambiente.

Só que a reprodução não é um processo de cópia exata; acontecem erros, as chamadas mutações. A maioria das mutações é neutra, mas algumas podem conferir ligeira vantagem a quem as desenvolve.

À medida que acumula mutações, a espécie vai-se modificando até chegar ao ponto de não poder mais reproduzir com os indivíduos da espécie original: é assim que surge uma nova espécie.

A reprodução, na ausência de metabolismo e código genético, dá-se de forma simples, através do rompimento do replicador. As duas partes que surgem de um rompimento continuam o trabalho de crescer através da absorção de blocos básicos para criar cópias de si mesmos, o que de certa forma estabelece uma competição.

Os blocos nem sempre são montados de forma idêntica, e as mudanças surgem aqui e ali, o que será equivalente às mutações.

E será que foi só o Tempo entre esse momento atrás descrito e os dias de hoje que permitiu que chegássemos à consciência?

Então e os outros Primatas que partilham a quase totalidade do nosso ADN? Aquilo que somos, a nossa árvore genealógica, só ‘recentemente’ é que criou o galho onde estamos. O que é que nos afastou dos Chimpanzés, Gorilas e Orangotangos, uma vez que evoluímos em conjunto?

Há um momento, este, em que não podemos ignorar a presença do GADU.

Meus QQII: não desperdicemos a dádiva que nos foi dada de pertencermos a algo que não estamos programados para compreender, mas sim para aceitar.

É como o Amor: se alguém o puder explicar, que o diga.

Disse, VM!

LVB,  MM da RL Camões

*Extremófilo: é o organismo que consegue sobreviver, ou até necessita mesmo de habitar em condições geoquímicas extremas, prejudiciais à maioria das outras formas de vida na Terra. Os micróbios são os extremófilos mais conhecidos.