São Jorge

Dirijo-me a vós, sobre o reflexo deste meu trabalho, com o titulo São Jorge, que hoje não é mais meu… sim, é nosso! Fruto do vosso reconhecimento e de toda a aprendizagem, que junto vós, pude alcançar. Uma aprendizagem, feita em silêncio, onde a espiritualidade e a minha ligação ao sagrado, foi crescendo, Resultado dos vossos conhecimentos e da forma altruísta como eles são partilhados connosco. Como parte integrante do edifício social, tenho moldado a pedra de modo a que todas se ajustem. Começamos por nós próprios com o vosso apoio, pois são aqueles que já percorreram o caminho da aprendizagem. Ouvis a vossa palavra livre e avisada, compreendi o seu exemplo. Estas serão também as minhas ferramentas: palavra e exemplo. Com elas, alcançaremos e partilharemos,  em conjunto, a edificação de uma sociedade mais justa e perfeita.

Evitando a memoria descritiva da peça, pois a mesma poderia inibir, ou condicionar, o trajecto individual de descoberta a que a obra se propõe, gostaria de tecer algumas considerações:

Comecei este quadro há sete anos, para logo a seguir o interromper pelos, mesmos, sete anos. Em 30 anos de pintura, nunca tal me tinha acontecido. Começou a ser trabalhado a aproximadamente 100 metros do local onde nos encontramos, o templo Pátria. Na realidade há tanto mistério que me une a este quadro, que só depois da minha iniciação no dia do equinócio da Primavera, a luz começou a revelar-se e o trabalho passou a fluir, para ser concluído no dia do Solstício de verão.

Estamos, por isso, na presença da primeira empreitada na minha condição de Plantado recentemente, como diz a palavra Grega Neóphitos, onde sempre combati o Vicio e procurei exaltar a virtude.

Tem sido um trabalho progressivo que envolveu uma constante e silenciosa descoberta. E não encontro melhor, ou mais pura razão, para justificar a complexidade da minha relação com esta obra durante tanto tempo. Pois também ela aguardava o vosso reconhecimento e a correspondente reflexão e aprendizagem que tem tomado conta de mim. Foi só junto vós que, quer eu, quer a peça descobrimos o nosso verdadeiro caminho. Caminho esse que se tem vindo a consubstanciar progressivamente. Um caminho só possível com a espiritualidade e conhecimento que aprendi junto a vós.

Tornou-se pois uma inevitabilidade consagrar-me a esta aclamação colectiva ao Santo Eclético, a São Jorge.

Recorrendo à Pesquisa, à rectidão na acção, a uma observação profunda, ao correcto emprego dos conhecimentos, à precisão na execução e à vontade na aplicação, que… Como diria Fernando Pessoa: “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”. E nasceu, hoje é nossa, e há nela tudo o que convosco aprendi.

Talvez não seja de uma forma obvia, mas seguramente todos nós encontraremos nela todas as referências que se encontram presentes. O corpo mental, O corpo físico, O corpo emocional e o corpo espiritual. Bem como as mais importantes referencias maçónicas. O compasso, o esquadro, o pêndulo, o nível, a régua, o malhete, as colunas, os pontos cardeais, e outras. Não se encontram escondidas ou veladas. Estão presentes para serem descobertas.

Posso garantir que no decorrer desta viagem anui que o quadro, em si, me deu muito mais do que eu racionalmente lá coloquei, simplesmente porque ele revela uma aprendizagem que me foi proporcionada por, e junto, a vós.

Inicio agora a fase em que este trabalho se solta da minha pele, do meu corpo, das minhas mãos. A fase em que deixo de estar dentro dele para retomar o meu lugar na cadeia que nos une. Sou agora, igualmente, um observador atento e analista deste quadro.

É aqui que um enorme sentimento me trespassa, pois a percepção desta viagem, este calcorrear de novos caminhos cheios de princípios, valores e conhecimento, aumentam a luz da descoberta e indicia muitas surpresas espirituais, tanto como uma consolidação Humanista.  Que assim possa acontecer, com todos vós, melhor, que assim possa acontecer com todos nós.

Termino com breves palavras que jorraram do desbaste desta matéria.

Os dias e as coisas passam,

Como jornais por ler,

Ou ausências de saudações e de respostas.

Já não se conhece o nome dos vizinhos.

Somos, cada vez mais, isolados

E quase ninguém sabe a nossa graça.

Como se ela se tivesse perdido

numa velocidade para a qual nem o sopro está preparado.

Mas quando não somos sozinho,

Quando somos reconhecidos,

Quando pertencemos a uma cadeia de união,

Podemos, todos, ser quase nada.

Sendo o nada a aproximação ao quase tudo.

Porque dentro de nós cabe uma infinidade de planetas.

Um universo inteiro

E o caminho é feito em busca da luz do criador.

Etapa, por etapa

Na medida certa em que o conhecimento é connosco partilhado.

Disse, Venerável Mestre.

A:.M:. JM